quinta-feira, 6 de outubro de 2016

E fiquei a ver navios...

Entrei de gaiato no navio
Oh!
Entrei, entrei
Entrei pelo cano...
Melô do Marinheiro, Paralamas

Estava esses dias revendo fotos das Olimpíadas e, como ela já passou, vou contar essa história, pra não esquecer:


A melhor metáfora da Olimpíada no meu caso pessoal, foi o navio Sagres português e ao lado dele o impávido “Cisne Branco”, lindo, em toda a sua glória. E, todo mundo riu no meu trabalho quando disse que sonhei com o navio português: na verdade, sonhei com o “Cisne Branco” achando que ele fosse o navio português.
 Mas não sonhei: tive pesadelos. Explico: desde o início meu único desejo nas olimpíadas era visitar esses dois navios e ver o basquete na cadeira de rodas nas paraolimpíadas. Não consegui nenhum dos dois. Com os navios, o problema eram as filas; com a paraolimpíada, os ingressos.


 No primeiro dia em que fui ao Boulevard, uma fila monstra, um sol de lascar . Ali naquela hora, parecia muito ruim entrar numa fila pra ver navios e abrir mão de ver todo o resto, que parecia mais tentador...Segundo dia: outra fila monstra; terceiro dia, chego às quatro e meia de um dia em que a marinha se dispôs a mostrar os navios até às cinco horas. E isso, correndo contra o tempo, vinda do trabalho esbaforida, aquela coisa toda. Imagina a minha decepção, quando ouço o guardinha fardado de azulzinho falando:
- O capitão decidiu fechar a fila às duas e meia.
 Enquanto vários turistas ficavam reclamando entre si,  eu ousei dizer pro homem fardadinho (porque tenho o maledeto hábito de falar quando os outros calam...):
- Mas, me desculpa, não era até às cinco?
- Era, mas a fila estava muito grande e o capitão decidiu finalizar mais cedo...
-Por quê?
- Porque tinha muita gente.
- Meu querido, vai ter sempre muita gente, é uma olimpíada...
Ele desconversou, gaguejou um pouco, virou pro outro lado tentando responder a uma turista pra fugir ao meu questionamento.
Aquilo não era justo. Chego ao meu trabalho no outro dia e descubro que uma amiga ficou duas horas na fila, debaixo do sol. O outro, tomou um fora como eu, em um dia em que o capitão resolveu finalizar a fila ao meio dia!!! Mas conseguiu ver num dia em que era jogo do Brasil e a fila por milagre, desapareceu...é, não ia ser fácil visitar aqueles belos navios...
Fui mais duas vezes sem êxito, muita fila e capitão fechando antes do prazo combinado.
Não desisto e volto numa quinta tentativa, no último dia.Chuva.  E eu fico toda animada quando vejo o Boulevard meio vazio e acho que vou conseguir daquela vez. Do outro lado da baia os navios me sorriem lindos, melancólicos, reis absolutos no meio da chuva do domingo triste.Mas, lá estão os guardinhas, e as porteirinhas fechadas a acabar com  a minha alegria.
 O mundo dos fardados. E, eu lembro que não é tão fácil abrir portas quando um fardado as fecha...
Eu me lembro do meu pai ferrado no regime militar, eu me lembro de tudo e não dá outra...
Lá estão duas nisseis, com cara de bobas e o guardinha de azul balançando a cabeça pra elas que o miram decepcionadas, de longe eu vejo a cena e já adivinho tudo. “Nunca vou pisar no Cisne Branco, com que sonhei”, eu penso com um horror quase infantil. Vou ter que matar esses guardinhas antes...
Chego mais perto e o olhar duro do fardadinho empertigado, treinado, de ordem absoluta , de obediência cega, me atravessa como uma pedra bruta (sinto até um arrepio). Pergunto (já sabendo a resposta):
- Onde está a fila pra ver o navio português?
- O capitão resolveu não abrir hoje.
Ah, o capitão! Ele resolve tudo...e decide tudo. Que poder o desse capitão que ninguém vê e ninguém sabe quem é!!!! Uma perfeita figura kafkiana! Lembro-me do “Castelo “de Kafka, livro que me angustiou  a ponto de não conseguir terminá-lo. E sinto que ainda vou ter pesadelos com esses navios...
- Como assim? Não era o ultimo dia de visitação hoje?
- Era. Mas, ele resolveu não abrir...
- E por quê?
Gaguejos, pigarros, a ânsia da hipocrisia habitual.
- Ontem teve muita gente e...
- Mas não era até hoje?
- Era, mas...
Novos gaguejos .
- E o navio brasileiro, o Cisne Branco, eu não posso visitar?
- O brasileiro vai ficar fechado também...
- Por quê?
- Porque o brasileiro foi na onda do português...
Era inútil entender tal ideia.
- E amanhã?
-Amanhã eles vão embora, como já estava combinado -  o  guardinha fala isso com  o orgulho da palavra empenhada e com a alegria de ferir o desejo alheio...
(A força dos fracos está em impedir o prazer dos fortes.rs)
Então era assim: o dia de ir embora era certeiro o combinado, mas não o de ficar. Injúria!
- Isso não tá certo, era hoje o último dia, vocês não tem o direito de impedir a visita...
- Senhora....
- Isso é um absuurrrrdo!!! – e eu, mal continha a minha fúria.
As nisseis começam, embaladas pelo meu poder de persuasão, a tentar protestar também. O empertigado endurece mais e fala mais coisas sem sentido, sem nenhum senso de lógica.
Vejo que não tem solução e revoltada, enfio o dedo na cara do guardinha e digo:
- É assim, não é, vocês fazem o que vocês querem? ...É isso...eu vou falar mal de vocês no meu blog...-  e sacudo veementemente o guarda-chuva nas mãos, tentando parecer ameaçadora.
Se fosse uma ditadura militar eu teria apanhado bem ali na hora e muito, mas meu namorado me puxou sutilmente pro lado antes que eu falasse algo que me faria ir pra cadeia ou responder a um processo...rs.  Ele me diz depois que provavelmente eles estavam rindo de mim, se f...pro que penso ou falo deles, de ressaca do jogo do Brasil no dia anterior e por isso não tinham aberto, porque não sobrou um guardinha DE PÉ pra tomar conta dos navios.E devia ser isso mesmo. E eu, não passava de uma mulher patética pra eles, querendo à força, visitar dois navios idiotas que eles estavam cansados de ver todo dia...rs
Mas, não são inocentes.
Arbitrários, eles fechavam portões, passagens, e soltavam fogos conforme lhes convinha... foi assim no show dos Paralamas, justamente quando eles cantavam em alto e bom som “QUE PAÍS É ESTE?” , uma saraivada de fogos foi levantada, pra abafar o som da banda...

E fui arrastada pra ver os navios, outra vez, de longe.

E fiquei ali, a ver e ver navios...

PS – Depois fiquei sabendo pela internet que foi considerado um programa de índio por algumas pessoas que estiveram lá. Um dos internautas, descendente de portugueses, chegou a dizer que “deu vontade até de trocar o sobrenome”...rs. Mas , isso , pra mim, não foi um consolo. Quanto aos ingressos da paraolimpíada, e meu sonho frustrado de ver aqueles superatletas do basquete, uma confusão total, golpes, cambistas e um site totalmente bagunçado, como todo mundo viu...fui!

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