terça-feira, 18 de setembro de 2018

Lobos predadores, mulheres e assaltantes


Dia desses sofri uma tentativa de assalto. Com a arma apontada para mim, sem pensar, fiz o inusitado – fugi do assaltante, que não atirou por algum motivo que me escapa (Faltavam balas? Ele não queria atirar? Ele estava nervoso? A arma era de brinquedo?) Nervosa,depois de ter escapado, pedi proteção de três homens que passavam na rua pra me conduzir de volta pra casa. Um deles, o mais forte, logo disse:

- Eu não, o assaltante pode voltar pra ir atrás de você...

E se esquivou praticamente correndo, quase como se eu fosse a própria assaltante. Os outros dois, curiosos, queriam saber como tinha sido tudo, ao invés de andar comigo até onde eu precisava.

Deixei-os, de pronto, lá na rua com sua covardia pouco solidária e voltei pra casa sozinha, morrendo de medo. Chorei com o porteiro do prédio, que foi homem o suficiente pra me consolar.

Foi quando me lembrei do filme “Thelma e Louise”, de 1991. Desnecessário reafirmar o brilhantismo do diretor Ridley Scott, nesse filme.  

Tudo está lá: as cenas majestáticas, de tirar o fôlego, uma fotografia perfeita, atores sintonizados, Brad Pitt em início de carreira e o feminismo, que na época, era só as reivindicações as mais banais das mulheres.

Elas queriam ter o direito de dizer não ao sexo, mesmo que tivessem dançado ou paquerado toda a noite com um homem; o desejo de viajar para onde quisessem; o desejo de pegarem a estrada sem ser importunadas pela paquera idiota de um homem qualquer, que decide fazer gestos indecentes enquanto elas dirigem seu carro e por aí ia.

O final é trágico. Essa tragicidade do filme se dá pelo ato impulsivo de Louise quando mata o agressor de Thelma. A partir daí, tudo o que se segue, vem em consequência desse ato.

Louise: armada, mas não perigosa


Qual a escolha de Louise? Se não matasse, Thelma seria estuprada; matando, cometeu o crime. Dilema. Ser vítima é melhor do que eliminar alguém? Essa é uma questão.

Por outro lado se o homem machista, o porco chauvinista naquele caso, não existisse ou fosse um homem educado, Thelma não correria riscos.

Educar os machistas é o desejo de toda mulher que se preze.

E aqui chegamos às reivindicações feministas de nossa época. São inúmeras demandas, muito além do direito de ir e vir sem ser incomodadas pelo operário de obra que nos grita: 

- Gostosa!

E, para as feministas radicais de plantão, devo dizer que há mulheres(não sei se machistas ou simplesmente “normais”) que gostam de ser admiradas pelo operário de obra. Inclusive tenho uma amiga que chegou a dizer, numa certa vez:

- Estou tão mal que nem operário de obra mexe comigo...

Obviamente falou isso de uma maneira lamentosa.

Mas, isso, não interessa às feministas, of course.  Também não lhes importa que a sexualidade masculina tenha um quê de selvageria em si mesma.

A feminista atual deseja que o homem se comporte como a sua melhor amiga, de preferência.

Bom, mas houve tempo em que homem abria a porta do carro para você entrar e sim, falava coisas indecorosas no seu ouvido quando ninguém estava olhando e sim, pagava a conta inteira do bar e sim, trocava os pneus furados e sim queria, (que horror!), transar na hora errada e ainda discutia que não ia ver aquele filme idiota com a Meg Ryan, até você ficar bem irritada, entre outras coisas, mas, (oh saudade!), tentava te proteger de alguns percalços... 

Meus amigos, isso acabou!

O romantismo está morto. E aquele cavalheiro estilo Sr. Darcy,  que resolvia todos os problemas, saído de um livro de Jane Austen, não existirá mais no futuro. Também não espere que algum homem a livre de um assalto.

Como Lagertha, a personagem de Vikings, nesses tempos selvagens, você mulher, deverá estar pronta para o que der e vier. De preferência com uma arma na mão(Lagertha tinha seu escudo, sua fúria, sua espada). Lembre-se: nenhum macho vai te proteger DE NADA! 

Lagertha: Emblema de mulher(blindada)do futuro

Vivemos tempos em que quanto mais temos, mais queremos e nada nos basta. Nem nos salva. 
 
Depois de vários avanços como a “Lei Maria da Penha”, que protegeu a mulher de seus machos agressivos e verdadeiramente danosos, esperava-se que a mulher se sentisse segura. Mas não. Isso não aconteceu.  As mulheres ainda se sentem desprotegidas, as feministas ainda não estão felizes e os homens agressores ainda são muitos e, como criminosos reincidentes, provam todos os dias que ainda não estão suficientemente educados. Se ficarão algum dia, é o que resta saber. Porque o fato, é que alguns nunca aprendem, por mais leis e regras que se façam. E continuarão a serem porcos predadores da feminilidade.

Por conta disso, nós, os outros, os ditos “normais”, os educados, os que não temos nada com isso, teremos que pagar.

E agora choverão cartilhas e regras de comportamento entre os sexos, porque obviamente um homem normal, esse pobre comum que não tem nada com isso, não vai saber mais o que é ser homem e as mulheres, todas, deverão agir conforme dita a última modinha das feministas para não serem consideradas machistas.

Vide o que aconteceu com aquele protesto de Catherine Deneuve e as reações feministas em cadeia, confundindo alhos com bugalhos;  o que acontece na Suécia a cada dia, onde os homens, descendentes de vikings, são agora cordeirinhos mansos que não conseguem e não devem proteger suas mulheres dos ataques de terceiros, pois elas mesmas devem se proteger por si sós, ou sofrer, caladas, os abusos e danos daqueles que nunca aprendem e nem querem aprender porque são, por natureza, lobos predadores.

E nós? Devemos ser ovelhas seguindo o rebanho?

Por causa de uns - os mal comportados - pagam todos.

Resta saber se os homens ainda saberão como se comportar entre as mulheres ou se, no pior dos casos, entraremos na inusitada era em que as mulheres terão que ser o sexo forte e cuidar de seus homens que não saberão como agir e o que fazer – confusos, sequer saberão qual o seu papel de homens.

Se ainda existir algum homem até lá...







segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Pagando pela felicidade


   Lembre-se de quando você era criança: sua avó fazia aquele bolo maravilhoso no casamento de alguém, sua tia costurava o vestido da noiva, o seu tio batia as fotografias e um padre de família realizava o casamento que acontecia num sítio de um amigo, ou na própria casa da noiva e todo mundo era muito feliz.  Ninguém ficava endividado.
   Minha mãe mesma casou-se na própria casa da família que era ampla e abrigava todos os convidados.
   Imagine essa cena hoje: é inviável. Ninguém vai te respeitar se você não pagar um cerimonialista  vip quando a sua filha se casar. Mesmo que você tenha uma casa admirável. E ele vai cobrar muito caro por cada pedacinho de cetim daquele lacinho que vai por cima da perolinha que enfeita aquele pequenino cup cake. Tão delicado, tão cheio de serelepes e que,  por isso,  é tão caro.
- "Não é tão caro, por isso ele vale tanto!"
   É o que você vai ouvir daquele ser elegante usando terno preto à sua frente com sotaque falsificado, estilo "O pai da noiva" fingindo que é descendente de franceses ou outra coisa qualquer, e que vai tentar te vender o “mimo”. Pode esperar por isso.


Steve Martin pagando caro  em "O pai da noiva"

   As crianças,  para se divertirem  tinham bolas, bicicletas, brincavam de pique e esconde, pulavam no chão  com pedra ou outro material qualquer: mais ou menos o que os personal  trainers fazem hoje em dia, com adultos que ficaram tão adultos que esqueceram o que é pular , correr, atravessar obstáculos, rodar um bambolê etc. Agora eles precisam pagar alguém  pra lhes ensinar como fazer isso.
  As ofertas de serviço estão muito além dos cerimonialistas de casamento  e do personal trainer.
  Barbearias que são cervejarias, salões de beleza equipados com massagistas e acupunturistas. Pode ser que você possa marcar um passeio turístico num desses, quem sabe. Tudo é possível e depende do limite da imaginação humana e do consumidor que vai pagar.
   E há gente- uma elite – com dinheiro sobrando para pagar por tudo isso. Ou há gente simplesmente se endividando para ter tudo isso. Das duas, uma.
   Dia desses cheguei num salão pra fazer a sobrancelha uma coisa que teoricamente você não deveria pagar mais do que vinte reais.
    Bom, mas alguém fez uma massagem nos meus pés, me vendeu um estimulador de pelos; um preenchedor de espaços vazios na sobrancelha ou algo assim; um lápis de maquilagem, um gel que ainda estou tentando descobrir para quê serve, e mais algumas coisinhas que elas me convenceram ser absolutamente necessário para eu ter uma sobrancelha de modelo.
   Minha sobrancelha foi feita por dez profissionais diferentes: cada uma tinha uma função que me escapou totalmente. Eu mal piscava e tinha outra pessoa se apresentando:
- Olá,  meu nome é Elise, eu vou agora marcar os cantos obscuros...
   Eu fechava os olhos tentando relaxar e ouvia de novo:
- Meu nome é Alessandra, eu vou...
   Até ontem eu achava que a minha sobrancelha era ok, uma sobrancelha longa e grossa, só que dez profissionais diferentes me convenceram de que não. Minha sobrancelha é defeituosa e eu nem sabia disso até agora em todos esses anos vividos, pasmem.
   Se eu dissesse quanto esse divertimento me custou, vocês diriam que enlouqueci.
   Gastar dinheiro é uma coisa enlouquecedora mesmo. Há psicólogos que dizem que conforme você compra, uma enzima ligada ao prazer é liberada no cérebro, te tornando imensamente feliz e eu não duvido porque sou bem sensível a essa enzima, seja qual for, devo ter de sobra.
   Sequer posso entrar num supermercado e avistar algumas sessões – cogumelos e chocolates, por exemplo – que já começo a enlouquecer. Um problema digno de psiquiatra.
   Uma ilusão de que se é rico, de que o dinheiro nunca acaba, de que a sua conta no banco é interminável – uma espécie de “síndrome petista” – te arrebata assim que você começa a gastar o que não tem.
 Pensei nisso dia desses vendo um programa chamado “Fora da caixa”. Não se empolgue pelo título.  É só um programa imoral mostrando as inumeráveis maneiras de ganhar dinheiro oferecendo alguns serviços desnecessários, fazendo as pessoas acreditarem que precisam deles.
   A quantidade de criatividade que os comerciantes colocam em campo é realmente uma façanha hercúlea, digna de admiração. Oferecem-se serviços que prometem “felicidade”, como por exemplo, no episódio a que assisti, em que eles ofereciam “picnics espirituais”.  
   Trata-se de levar um monte de adultos urbanoides num lugar lindo, em contato com a natureza. Pode ser aquela cachoeira que está ali mesmo bem próxima da sua casa, mas você nunca vai porque é preguiçoso e não tira a bunda do sofá, vendo novela da Globo e ficando cada vez mais imbecilizado.
   Mas você não precisa se preocupar mais com isso, desde que você possa pagar – of course. Os empresários do picnic espiritual vão te levar a conhecer essa cachoeira  com comidinhas embaixo da árvore e toalha xadrez, passeios e alongamentos e um deles, com uma barba de budista que passou 7 anos no Tibet vai te dizer: “expire”, inspire”,” molhe os pés”, “visualize seu futuro de ouro” ,  coisas assim  e você vai sair dali outra pessoa. Pode acreditar.
   Agora me lembrei de um dos meus picnics com minha família quando eu era criança. Era um dia quente num igarapé gelado, perto de uma praia em que acabáramos de sair. 
   Quando vi a foto quase voltei àquele dia. Era como se tivesse entrado num túnel da memória de volta para o passado...
   Recentemente almocei na casa de uma amiga que mora num sítio. Uma amiga dessas que Deus só te dá chance de ter uma na vida. Comemos e bebemos debaixo das árvores ouvindo pássaros, conferindo ervas, frutas e plantas e falando bobagens. Rimos muito e saí de lá bem feliz.
  Bem melhor do que um picnic espiritual de uma empresa qualquer...
  Realmente não se deve pagar pela felicidade!

terça-feira, 26 de junho de 2018

No mundo cão, sem amigos


  
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...Como grandes amigos


   A gente sabe que os amigos antigos são joias preciosas, como pérolas sem preço. Você precisa de uma vida inteira, às vezes vinte anos para fazê-los de novo. E isso é quase impossível. E eu sou do tipo que não tenho tanta paciência assim de esperar pra ter um amigo de verdade. Até porque não sou nem nunca fui do tipo que “faz amigos”, não os procuro, eles sempre me “aconteceram”. Meio que topo com eles “no meio do caminho”, assim como no poema de Drummond. Só que aqui, é a pedra preciosa.
   E é por isso que meus amigos antigos são especiais pra mim.
   Mas, a questão é que é muito é fácil perder os amigos. Mesmo esses de uma vida toda.
   Há amizades que se tornam mistérios repentinos dignos de um Sherlock Holmes. Tive uma experiência sobre isso. Um amigo, do nada, ficou frio como gelo, me bloqueou na rede, começou a se esquivar, a evitar minha companhia devagarzinho, sem que eu percebesse de cara (que sou dessas pessoas desligadas que vive a pensar na morte da bezerra),  mas depois de um tempo ficou evidente.

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Digno de Sherlock Holmes...

   Quando eu ligava inventava desculpas pra não me encontrar, que eu tinha que aceitar como legítimas, ainda que eu soubesse que algumas dessas desculpas podiam sim, ser subvertidas. Por exemplo, quando você liga e diz: “Fulano, estou aqui no teu bairro, vem tomar um chopp comigo” e ele diz: “Você devia ter me avisado antes, agora eu tenho isso, eu tenho aquilo”. É de pensar.
   Eu admito que não seja uma amiga lá muito perfeitinha, sou meio irregular, meio inconstante, eu diria, apesar disso (e eu não quero me gabar), eu sairia correndo pra ver qualquer amigo que se deslocou pra me encontrar, mesmo que eu não tivesse me programado anteriormente. Vestia uma roupa qualquer e diria: “Olha, tem aqui o seu fulaninho, ele veio medir a cortina e isso e aquilo, mas eu já vou dispensar e vou encontrar você em uma hora, duas horas”....a merda que fosse. E digo mais, eu esperaria de bom grado, por quantas horas fosse necessária pra encontrar um verdadeiro amigo. Já fiz isso inúmeras vezes na minha vida. Mudar de planos por um amigo é, bem, é sinal de, deixe-me ver...DE AMIZADE!
   Porque amizades nem sempre são ou pretendem ser tão confortáveis assim: amigos adoecem em hora errada te dando preocupação e desespero, são escandalosos, alguns ficam bêbados na rua e vomitam e te dão trabalho, chegam sem avisar naquele dia em que você não quer papo e não tem nem pó de café no armário, eles se deprimem, precisam de ajuda na hora em que você precisa fazer outra coisa, eles te tratam mal às vezes, planejam férias com outros amigos que você não gosta, namoram pessoas insuportáveis às vezes, têm ideias políticas péssimas, torcem por um time horrível, são chatos quando viajam com você ,  nunca querem fazer o que você quer, carecem de espírito aventureiro, têm mau gosto para filmes,  adoram bater selfies, não sabem debater, são cabeça dura, e um monte de outras coisas...
   Sem falar que coisas acontecem: ou você, de repente, casou, teve filhos e já não se sente tão ligado assim naquela pessoa que fez um doutorado em Biologia quando você é um ator, um marciano de outro planeta ou coisa que o valha. Mas, quer saber? Amizade verdadeira é pra poucos, vale a pena o sacrifício. Lembre-se dos bons momentos.
Eles sempre voltarão.
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The best friend
   E torça muito pra que nenhum deles enlouqueça de repente e te tire do raio de contato, onde, provavelmente, te substituirá por gente claramente falsa e superficial, porque só gente assim acredita que um amigo pode ser feito de uma hora pra outra, desprezando os anos.
   Pode apostar: seu amigo vai bater a porta na sua cara e colocar no seu lugar aquela pessoa circunstancial, de uma tribo alheia, da qual você nunca ouviu falar num raio de milhões de anos-luz, que apareceu só Deus sabe de onde, provando que ele não quer envolvimento. Metaforicamente ele está gritando pra você: “Me deixe em paz”.
   Eu respeito isso. Às vezes como Greta Garbo, tudo o que queremos é “to be alone”.
   Ou simplesmente não é nada disso. Simplesmente a pessoa enjoou de você, da sua cara, do seu jeito, da sua pessoa mal resolvida e inconsistente. É uma hipótese muito justa. Como uma cigarra, pegue a sua viola e cante em outro lugar, pois como disse uma vez, a nossa grande pensadora de plantão Marcia Tiburi, naquele programa altamente filosófico, do qual ela tomava parte: “Pelo direito de enjoar”.
   Concordo. Veja como isso resume tudo. Perceba a simplicidade deste “argumento filosófico” irredutível: seu amigo cansou de você, ENJOOU. C´est fini.
   A maioria dos meus amigos de vinte/quinze anos atrás, já me enjoou bastante também. Ad nauseam.  Mas preferi, por via das dúvidas, ficar com eles. Lua em touro dá nisso: conservadores chatos, colecionadores de velhices...rs.
   Pra mim, eles ainda são aquela joia antiguinha, fora de moda e sem glamour que tua avó te deu e faz parte do teu acervo de vida. Absolutamente rara. Do tipo que não se fabrica mais. Preciosidade. Velha, é verdade, pode ser que emperre algumas vezes, aquele fecho não abre, aquela corrente quebrou, mas, é uma joia. Sempre vai brilhar.
   Nesse mundo cão, boa sorte pra quem se dá ao luxo de dispensar amigos!
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terça-feira, 19 de junho de 2018

Epopeias Cariocas: Black Mirror: vivendo dentro da fôrma

Epopeias Cariocas: Black Mirror: vivendo dentro da fôrma:    Que estamos todos presos numa bolha,   num mundo que escapa ao nosso controle, já sabemos. Nossas escolhas já vem se tornando algoritmo...

Black Mirror: vivendo dentro da fôrma


   Que estamos todos presos numa bolha,  num mundo que escapa ao nosso controle, já sabemos. Nossas escolhas já vem se tornando algoritmos num sistema que decide por nós o que devemos ver , pensar, comprar.  A única possibilidade é apertar o botão  OFF. DELET. Mas, nisso, nos isolamos do mundo à nossa volta. É o preço da liberdade.
   Perdemos pouco a pouco os instintos e o pensamento para máquinas ultrassofisticadas que se encarregam não só de nossas escolhas, como também pretendem tomar conta  de nossas identidades.  É um fato. Somos nossos computadores e celulares. Não pensamos, eles pensam por nós, eles nos conduzem , eles dizem onde e porque devemos ir ou não ir...
   Black Mirror parece fazer a pergunta:  “E se fosse ainda pior?...”
Todos os episódios futuristas, na maioria,  parecem apontar para uma visão pessimista desse mundo onde o livre arbítrio já não tem vez . O homem já perdeu um pouco da sua humanidade tal como conhecemos.       Dominado por  dispositivos ultrassofisticados e cada vez mais surreais, a vida beira o ridículo, a necessidade inventada ultrapassa e muito os desejos reais, que não podem mais ser validados por nenhuma existência.
   Se você acha irritante a vida sob a tutela dos bonequinhos de curti e não curti e dos likes do mundo de hoje, tente pensar em algo bem pior ainda. Pensou?
Imagine se sua existência toda dependesse desses mesmos likes e avaliações que lhe dão pelas redes sociais. Consegue imaginar tal coisa?
   Queda Livre é o episódio que mostra essa possibilidade. 

Black Mirror: Episódio "Queda Livre"


   Uma mulher passa os dias atrás de uma pontuação positiva dada para sua popularidade nas redes sociais.A pontuação positiva é manipulada em cada atitude ao longo do dia,  transformando os usuários em  verdadeiros escravos de uma imagem, que os faz meros sorrisos colgate numa existência totalmente falsa, que depende de apoiar os outros para ser apoiado. Autonomia zero.  
   A personagem em questão  nem sabe por que quer construir uma imagem positiva de si mesma, mas não lhe parece que a vida possa existir fora daquilo, embora ela mesma saiba da falsidade daquilo tudo. E não pode mesmo, a não ser flertando com a própria marginalidade, é o que ficamos sabendo quando a personagem da caminhoneira maluca aparece com uma pontuação péssima apontando o outro lado possível, que é onde, exatamente,  nossa pobre personagem vai parar. Literalmente atrás das grades, após seu grande vexame e a perda de toda a reputação ligada às pontuações. O episódio parece gritar: ou seja popular e superficial, nesse caso você será aceito socialmente e terá um lugar neste mundo  imbecil com outros imbecis ao seu lado, ou seja  livre e marginal. E pague pelas consequências. 
   Não é uma grande opção, não é mesmo?
   Em “DO BONEQUINHO” ,aliás foi o meu episódio  preferido, um boneco virtual ,(na verdade um urso azul,  que é dublado por um comediante real que fica detrás dos bastidores, )criado por um programa de televisão, existe para provocar pessoas entrevistadas, com suas piadas politicamente incorretas e seu humor corrosivo. Mas ele  acaba tendo uma popularidade tão enorme  , que é alçado á candidato político de uma eleição.
    Por mais estranho que possa parecer, sua popularidade cresce tanto ao ponto de ele se tornar uma espécie de mascote mundial. Um “pensador" de plantão, venerado por todo o mundo e que não foi concebido para ser nada,  além de um piadista cínico.
   É o que faz ver seu próprio criador,  que se  rebela contra a mentira que vive, ao mesmo tempo em que vê crescer sua popularidade, contra ele mesmo, e  quanto mais se quer longe daquilo.
   Num  outro episodio dirigido por Jodie Foster,  uma mãe que quase perde sua filha num parque, fica tão traumatizada que resolve aderir a um programa chamado Arkangel, onde um dispositivo é colocado na cabeça da filha e sua vida  pode ser acessada via imagem numa tela para a mãe que fica tendo o controle de tudo o que a filha pode ver ou não ver no mundo. Imagens sanguinolentas, violentas etc, podem ser vedadas.
   Mas quando a filha finalmente tenta viver no mundo real, a mãe  não consegue se ver livre do controle que exercia sobre ela.
   De todos os episódios esse é talvez o que tem o final mais positivo, num certo sentido. Já que há a possibilidade de apagar a tela, quebrar, ir pra longe...
   Em todos os episódios vemos as pessoas presas em suas falsas correntes, que podem ser quebradas facilmente, mas elas não o conseguem fazer, porque não enxergam suas escolhas.
Pular o muro , a cerca do sistema, ir pro outro lado, escapar de ser um escravo  é  tema de muitos.
   Um outro  episódio  fala de encontros amorosos dados por um programa que promete encontrar a pessoa ideal, depois de alguns encontros que são previamente determinados quanto tempo durarão, porque , segundo o sistema : “tudo acontece por um motivo”.
   E é esse motivo que o expectador fica procurando ao longo do episódio inteiro, assim como os personagens que se veem presos numa roda que parece não ter fim. Não vou dar spoiler sobre esse episódio, que é muito bom e bem melhor quando assistido.Além de tudo,  conto muito mal esse tipo de história.
   Só vou dizer que logo no começo, esse  casal reunido aleatoriamente pelo sistema, questiona como seria se eles pudessem fazer sua própria escolhas. Concluem ambos que deve ser muito difícil fazer escolhas e ser responsável por elas.
   Fazer escolhas é algo que já não fazemos há muito tempo mesmo. Achamos que escolhemos  mas somos escolhidos. Achamos que vivemos , mas simplesmente reagimos,  somos levados numa maré, numa corrente,  enquanto aguardamos na estação pelo próximo trem, que nos leve para...




quinta-feira, 31 de maio de 2018

A pirâmide da morte ou limpando a bunda alheia


      No filme “O silêncio da montanha” um soldado austríaco, na primeira guerra mundial,  faz uma piada sobre as possibilidades de escolha que temos na vida, mesmo nas piores situações. Diz ele coisas absurdas como se você morrer e for pra uma vala comum ao invés de um túmulo ainda terá duas escolhas, caso caía lá no fundo da pilha.  Uma delas , é a possibilidade de se transformar numa árvore, mas se você não for uma bela árvore ramada, e sim uma árvore conífera,  não se preocupe, você ainda terá duas escolhas: se transformar num belo pedaço de madeira ou , caso você se torne apenas um corte, ainda assim , poderá acabar numa fábrica de papel  , onde,  na melhor das hipóteses , poderá vir a ser um belo papel de carta, ou , na pior hipótese, "a paper toilet" ( nosso papel higiênico). Nesse caso, você acabará na bunda de alguém...
      É irônico que ele diz tudo isso um minuto pouco antes de morrer com um tiro no peito, rindo da própria piada.

William Moseley em "O silêncio da montanha"

      As escolhas são algo que nos leva pra lá e pra cá sem que percebamos. Escolhemos o tempo todo  sem nos darmos o porquê. Sem nem nos apercebermos.
      Pode ser que você chegue  hoje mesmo atrasado no trabalho porque decidiu usar aquela blusa preta em cima da hora, que terá que passar a ferro ao invés de usar a azul que já estava passada e , sendo assim ,  com uns cinco minutos fatais , dados por aquele sinal que quebrou no  túnel e fez atrasar o ônibus, o resultado é que o chefão irá te ver chegar esbaforido/a, te  olhar de cara feia e o seu dia mudará completamente...
     Mesmo assim, você ainda terá duas escolhas: tentar explicar a situação com uma boa desculpa, ou dar um f...e concluir que esse tipo de situação é o empurrão que , quem sabe,  você precisava, para dar um basta na sua vida vazia  e  procurar um emprego melhor que te satisfaça, já que esse trabalho, essa cidade , é tudo uma m...
      Ou, naquele outro dia, você decidiu sair de bicicleta sem capacete porque estava com pressa. Mas,  com pista molhada, um acidente te fez quebrar a  perna . Mas, apesar disso, você ainda tem duas escolhas: vender a bicicleta, ou nunca mais sair sem capacete. Se vender a bicicleta, ok, mas se sair com capacete e ainda assim , for atropelada outra vez , você ainda terá duas escolhas: desistir de ser ciclista ou mudar pra uma cidade menos movimentada.
   Se desistir de ser ciclista , tudo bem, mas se mudar e não gostar, você ainda tem duas opções: ignorar onde mora e ser feliz de qualquer jeito, ou mudar-se de novo. Se  ignorar onde mora, bom pra você; mas se mudar de novo, poderá fazer novos amigos...
   Se o fizer , bom pra você; mas se não fizer, talvez seja a hora de mudar de país, ou tornar-se eremita...
     Assim , você verá que o ciclo das escolhas permanece e continua infinitamente. São as possibilidades da vida. O novo, matando o que ficou pra trás...
      Nascemos e morremos, e vamos pra lá e pra cá, movidos por nossas escolhas, sim!
      A verdade é que todas as situações da vida te dão escolhas. Mesmo que você não queira enxergá-las, a princípio. E todos nós adoramos a frase pronta e clichê: ”Eu não tive escolha”.
    A verdade é que temos.
    E é uma boa notícia, por que não?
    Por pior que tudo seja, saiba que pode ficar pior ainda. Mas você pode ter, dentro desse pior,  pelo menos,  duas escolhas. Que podem ou não ser melhores do que a primeira que ficou lá no início....
    Então, preste atenção, antes de morrer contando uma piada e  servir de papel  pra limpar a bunda de alguém...

terça-feira, 13 de março de 2018

"Get out": Batendo na tecla do racismo

Daniel Kaluuya em "Get out"


Nada como um filme americano para deixar bem claro, bem óbvio, bem rasteiro, o que a sociedade pensa sobre alguma coisa. E como andamos para trás ao invés de ir pra frente...

É como se os americanos consumissem toda a merda da humanidade e depois, despejassem o seu vômito sobre ela. É o papel de Hollywood. Eles têm se aplicado nisso, feito o dever de casa direitinho e sem nenhuma elegância nem pudor, voilà. E “The oscar goes  to”...

E todos compramos toda essa velhacaria no próximo ano. E no próximo e no próximo.  Com direito a tapete vermelho, divas vestindo Armani, discursos hipócritas e piadinhas sem graça. Não é maravilhoso? Eis uma coisa que eu admiro do fundo do coração: a cara de pau desses americanos. 

Mesmo em questões delicadas, como o racismo, eles não guardam pudores em falar o que desejam, o que lhes vai pela brilhante cabeça, da forma que bem entendem , cuspindo suas tacanhas ideologias sobre as pessoas.

Sua imaginação sem requintes e sem limites é que tornam possível  que um filme como “CORRA”(Get out, 20017, Jordan Peele), Oscar de roteiro original,  seja essa obra  prima quatro estrelas, segundo a crítica que temos hoje que eu nem calculo quem são. E nem quero conhecer.

Um negro namora uma branca, e ela o está levando para conhecer os seus pais, numa relação bem esquisita desde a primeira cena, com a trilha sonora dando dicas da esquisitice o tempo todo, marcando num suspense bem óbvio, como se o telespectador não racionasse, e precisasse de música pontual para entender o filme, musica  que funciona como hipnose nas cenas (bem  a  sintonizar com uma de suas personagens, como veremos) .

E quando a namoradinha diz para o namorado , apreensivo com o encontro com os pais dela: 
-  Fique tranquilo o meu pai votaria no Obama a cada vez que ele se candidatasse. Eles não são racistas.

O telespectador, além de ficar constrangido com essa frase ridícula e ideológica até a raiz do cabelo, só se for muito idiota, para não saber que deverá esperar pelo pior.

E é claro que esse pai só podia ser racista. Mas, muito pior do que um racista é  um racista psicopata, aliás,  uma família inteira, uma comunidade inteira de psicopatas, que tal?   Por que não?

Hollywood é assim mesmo. Sutil como um véu de noiva ou um pudim de claras. Isso , já sabemos.

Na casa da prometida, o namoradinho talentoso  (ele é fotógrafo) descobre que a família dela é pra lá de estranha com mãe psiquiatra que hipnotiza os empregados negros  com uma xícara de chá e  tem amigos brancos  dignos de um romance cavernoso de Agatha Christie, assustadores e neuróticos;  um irmão, ruivo , sardento , violento e  claramente maluco e o pai, incestuoso  neurocientista vingativo e ressentido,  filho de um atleta que perdeu, (adivinhem?)  a competição de Olimpíadas (me parece, não me lembro ao certo) para um negro, na época de Hitler.

Nossa! Pode acontecer mais alguma coisa?

O desfile de clichês não pode piorar, vocês devem estar pensando,  quando descobrimos que sim, que pode.

Catherine Keener, a mãe- psicopata racista hipnotizando com chá

O namorado é preso num porão onde vão fazer experiências neurocientíficas com  ele (afinal Hitler não entrou no filme , por acaso).

O que os loucos brancos querem é a força física dos negros, a sua genética superior e, para isso,  os transformarão em meio humanos, meio zumbis,  para lhes roubar o que querem...

As comparações entre negros e animais são constantes (sim, a sutileza), o namorado arranha a poltrona no porão como um bicho enjaulado, os cervos (da floresta) são atropelados, mortos e embalsamados. 

Precisa?

Ao interpretar a “raça” negra como animalidade,  relacionando a selvageria física na tela com os negros , só se reforça uma situação que pode e precisa ser esquecida e superada  a favor dos negros, a favor da humanidade.

Mas Hollywood não está nem aí pra nada disso. Quem se importa?

Mais e mais negros serão tratados como animais nas telas pra jogar nas caras dos racistas o seu ódio e o discursinho de ódio tão na moda que os culpados lhes devem. A quem interessar possa.

E mais não conto porque já contei quase tudo e já fiz o que me propus a fazer. Dizer que o filme é uma bela duma boa bosta.

E, o final é tão ruim quanto o filme inteiro. Pior.  De um mau gosto infantil,  que beira o lamentável. O cômico, no sentido ruim. Faz crer que o filme inteiro não passou de uma paródia enganosa .

Em alguns momentos me lembrou “Mulheres Perfeitas”, com a Nicole Kidman.  Me pareceu até que o diretor,  copiou aqui e ali o estilo daquele outro filme. Sendo que aquele era um bom filme.

Enfim, “Corra” bate na tecla de que os negros são vistos  como animais pelos brancos, que deles , invejam apenas a força bruta, que é o que é usado pra se livrar, afinal,  dos brancos , no término do filme. Elementar, meu caro Watson.

Americanos não conseguem pensar além de uma triste dualidade: o mal e o bem, o branco, o preto, o ruim e o bom. O mocinho e o bandido.E dá-lhe vingança!

A depressão do protagonista, deixa em dúvida,  depois de toda a pancadaria e a matança à la Rambo nas últimas cenas,  se o filme é sério ou é uma mera piada.

Se for a sério, então, negro: Corra, fuja. Os brancos são uma ameaça! Odeie-os como eles te odeiam. É isso que Hollywood está dizendo. E, se for uma piada, bem, o filme continua muito ruim, mesmo sendo uma piada! 

Nada de bom foi acrescentado ao problema racial. Os negros são as vítimas eternas dos brancos e só se livram deles na porradaria...

A crítica o amou.  Sobre isso  nada digo.  

Apenas digo que esse filme apenas me  deu saudades de filmes  como “ADIVINHE QUEM VEM PRA JANTAR?” .

Sidney Poitier e Spencer Tracy, 1967.

Quem se der ao trabalho de ver os dois, vai entender do que estou falando.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Método para navegar na internet

Aprendi um novo sistema de navegação na internet. Começa assim: você digita uma frase longa e burramente importante, como aquelas que podem ser, por exemplo, títulos de uma tese de doutorado da academia e que não tem senso algum, como, por exemplo: “As vicissitudes  da herança portuguesa alienada e progressista no âmbito das relações sociais no Brasil (...)”. Algo assim. Tem que ser algo bem longo, e perigosamente, pretensamente, bobamente intelectual. Aperte o ENTER e deixe-se maravilhar pelos resultados. Pode ser que você caia numa linda página que te apresente a um filósofo antigo do qual você nunca ouviu falar, estilo Avicena; pode ser que caia numa crônica de Rubem Braga que você já leu quinhentas vezes; nos diários de Emilio Renzi (aconteceu comigo) ou – e há sempre esse risco – numa tese boba, pretensiosa e bestamente intelectual da academia. Nesse último caso , dê meia volta e invente outro título estapafúrdio e recomece a sua busca.

Vale tentar.

Boa Sorte!


sábado, 17 de fevereiro de 2018

História do politicamente incorreto segundo Leandro Americanizado Narloch


   A esquerda e a direita brasileira merecem quebrar o pau. Que se estapeiem uma a outra. Quero ver o circo pegar fogo. Para que vejamos a nu e a cru a pobreza de uma e outra e como estamos a pé nesse país...
   Enquanto uma sonha em transformar a bandeira do Brasil numa bandeira vermelha com foice&martelo  e revolucionar isso aqui até que vire uma ditadurazinha comunista sem nenhuma identidade própria, com migalhas para o povo e caviar para os “companheiros”, a outra não sossega enquanto não vender a alma para os americanos. É por isso que acho bom quando um louco qualquer que atende pelo nome de Leandro Narloch escreve uma suposta história que “nunca” foi escrita. A história do politicamente incorreto.
   Daí então, você entende que os seguidores do Olavo de Carvalho não batem lé com cré. Tão loucos e perturbados quanto os amiguinhos de Che.
  Na série, nascida do livro de Narloch,  “Guia politicamente incorreto da História do Brasil” há bizarrices cujo único objetivo  parece ser pontuar que somos um país de idiotas que não tem do que se orgulhar e melhor seria sermos todos como os americanos. E o esforço é tanto para aplicar a tese, que eles se dão ao trabalho de fazer um capítulo inteiro com a intenção de desvirtuar ícones brasileiros como Santos Dumont, por exemplo.
   Segundo a direita de Narloch,  Santos Dumont não foi o pai da aviação ( e sim , segundo a série veiculada pelo americanizadinho canal History Channel) os irmãos Wright.  Eles, que não ligavam para ter o título, mas se preocuparam seriamente com a patente.  Veja que coisa difícil e contraditória de entender. Eles não se importavam, eles eram, segundo Narloch,  fazendeiros bonzinhos e desinteressados, lá de Ohio, tímidos, abstêmios, protestantes interioranos que trabalhavam numa fabriqueta de bicicletas,  mas queriam a patente. Estranho!
   Neste capítulo da série o esforço para colocar os irmãos Wright como criadores do primeiro voo é tão intenso, manipulador e cínico que segundo os “historiadores” que participaram (entre eles um professor americano, vejam só, e uma neta- sobrinha dos irmãos Wright, mais um filho da p. que me escapou quem era),  querem fazer você crer que Santos Dumont era apenas um balonista dândi e criativo que passeava por Paris, mais interessado em frequentar jantares caros e ser amigos de reis do que em criar o avião.  E que o 14 bis, segundo Leandro Narloch “não voava , mas dava pulinhos”.

Parece um pássaro? Nãoooo , é um avião!
   Ninguém falou com seriedade do Demoiselle, que foi realmente o primeiro ultraleve que criou toda a base da aviação moderna inventado por Santos Dumont, of course, em 1907. E ninguém falou que o 14 bis foi apenas o primeiro protótipo que viria a ser desenvolvido mais tarde e que resultou no Demoiselle.
Demoiselle
   Bom, mas segundo eles, os irmãos Wright não usaram catapulta(há controvérsias) , mas apenas um “dispositivo”, um trilho,   para fazer o modelo deles alçar voo. Com dispositivo é fácil, baby. Sem falar que não há testemunhas desse voo, que eles se vangloriam de ter sido realizado antes do de Santos Dumont, voo que foi comunicado via telegrama para o aeroclube da França.
   Really? Se fosse o contrário e Santos Dumont dissesse que voou por telegrama, os americanos iam acreditar? É só uma pergunta...
   Enquanto isso, Santos Dumont fazia tudo publicamente. Aos olhos de quem quisesse ver.
   Mas, na série politicamente incorreta de Leandro Narloch ninguém falou verdadeiramente do Santos Dumont!Ora , pra quê? Santos Dumont era só um idiota rico que brincava com balões e dirigíveis. Falou-se dos irmãos Wright e Santos Dumont só entrou na história pra afirmar, por contraste, o desinteresse e a criatividade gratuita e “boazinha” dos irmãos americanos, realmente interessados na aviação.
   Além de terem relevado de propósito o fato de o modelo americano ser conduzido por um trilho e num lugar de vento intenso, também não disseram que o modelo dos irmãos Wright nunca conseguiu ser recriado posteriormente e colocado no ar, o que não foi o caso do Demoiselle. Ou seja, esqueceram tudo o que importava, por esquecimento mesmo? Ou pura desonestidade intelectual?
   Apostem vocês.

   O que quero saber é se o professorzinho de bosta americano e a neta-sobrinha dos irmãos subiriam no modelo que se vangloriam de ter ficado no ar. Um avião que fica no ar com catapulta  e vento a favor , não voa. É uma pipa de criança. E ponto final. Por que eles não recriam o modelo, como já fizeram os brasileiros com o modelo de Santos Dumont, e vão voar nele, se era tão seguro? 
   Por um simples motivo: eles já o fizeram pra comemorar os 100 anos do tal voo em 2003, mas o modelito não voou.Chafurdou em plena lama. Oh,que pena!O Globo noticiou o fato com uma manchete chamada: "A vingança de Santos Dumont" 


   Sendo assim, meus amigos, o pai espiritual da aviação, o criador-mor mais original e constante fica sendo sim Santos Dumont, queiram os americanos e a direita de merda brasileira ou não. Foi ele que criou as bases da aviação moderna. 
   Como disse Henrique Lins de Barros:

"Ele resolve uma das questões essenciais do voo, que é tirar o avião do chão. Conseguiu transportar as forças que ele conhece e que atuam quando o avião está pousado e fazer a transição entre a situação do avião pousado e do avião voando, onde as novas forças têm que atuar e ele não conhece direito onde elas atuam".
Prova disso é que o primeiro avião a ser produzido em série na história, que inspirou o desenho de vários outros, foi uma invenção de Dumont: o Demoiselle, de 1907. Esse precursor do ultraleve teve seu projeto distribuído gratuitamente pelo brasileiro. Cerca de 300 foram produzidos pela fábrica Clément Bayard.


   Gratuitamente! Santos Dumont sequer fez questão de cobrar por isso. Ele era rico, e daí?
   Duvido que algum americano rico fizesse o mesmo  e falo isso por mera constatação, já que conhecemos muito bem a atitude arrogante e superior dos americanos. Os irmãos Wright fizeram tanta questão da patente e nunca conseguiram. Bem feito!
   É o mesmo Henrique Lins de Barros que diz:

“ (...)Nos EUA aconteceu exatamente o contrário. Orville e Wilbur Wright eram capitalistas que fizeram questão de patentear o aeroplano. Eles poderiam patentear o motor, o sistema de esquis. Tentaram patentear o avião, o voo.
Não conseguiram. Com isso, atrasaram o desenvolvimento tecnológico nos EUA até 1911, ao tentar impedir outros americanos, como Glenn Curtiss, de desenvolver aeronaves. "A Scientific American chegou a perguntar se eram "flyers" (voadores) ou "liars" (mentirosos)".

   Que os americanos queiram ser donos de tudo, se entende , já que sofrem de megalomania explícita e  patológica,  só não se entende que os brasileiros os aplaudam por isso  e fiquem se rendendo a eles.
   Meu avô tinha razão quando disse que esse país devia ser vendido pros Estados Unidos. Os brasileiros rendem tanta homenagem aos americanismos que o complexo de vira-lata é pouco para explicar tamanha bobagem.
   E essa série politiquinha incorretinha também se arvorou a transformar os índios brasileiros numa aberração predadora e destruidora da natureza. Mas, isso, fica pra outra hora.
   Fui.