sábado, 10 de novembro de 2018

A Estória da História


Lembro-me muito bem dos meus bancos escolares nos Irmãos Maristas em Belém, onde meus professores de História  nos diziam que a Revolução Francesa, por exemplo,  embora manobra política, foi importante pois lutava por “Igualdade, Liberdade, Fraternidade”. Comocionados pelos livros de Heródoto Barbeiro e pelo olhar heroico de Delacroix, a revolução era o ideal  que atingia a perfeição equilibrada do mundo.

Delacroix: A liberdade guiando o povo

Logo essa narrativa produzia filhos da Perestroika aos montes nas Universidades  e todos os “oikas” possíveis e imagináveis na terra. Muitos olhares e muitos séculos depois, todo mundo sabe agora que a “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”,  era só para a burguesia.

A burguesia,  essa pulga caolha,  essa massa disforme  “que fede e quer ficar rica”, formiguinhas insuportáveis que viraram com o tempo,  os capitalistas e empresários realmente abomináveis,  ganharam eles também seu nobre espaço de ódio dirigido pelo olhar dos que ainda procuram a “justiça social”. Se é que ela existe.

Até se refez um olhar mais caridoso sobre a detestável realeza. E Sofia Coppola estilizou a vida de Maria Antonieta no cinema, aquela mesma, que todo professor dos anos 80 adorava golpear com a frase , que hoje, dizem: foi “atribuída” a ela. (Deus mora nos detalhes):

“Se não têm pão, que comam brioche”

 "Marie Antoinette" de Sofia Coppola

Maria Antonieta  agora é vista como uma vítima inocente da história que ela mesma viveu, pressionada pela Áustria-mãe de um lado e pela França que nunca a adotou de verdade. Ela era uma outsider, nos contam agora.

Palmas pra ela e até eu, confesso, sempre fui uma fã ardorosa daquela terrível frase elitista, essas frases incômodas que o povo ama ouvir, mas não tem coragem de falar. E da qual sempre achei muita graça, pois, minha mãe adorava, com seu humor que seria muito mal compreendido hoje, falar frases assim. De uma vez, tendo sido interrogada  num clube  de sua frequência, em quê trabalhava, respondeu com um olhar superior e irreverente que tinha quase o  tempo todo:

- Graçaaaaaasss a Deus nunca precisei trabalhar...

Sim, era uma dona de casa com orgulho, que se casou aos 17 anos  mas, daquelas perfeitas! Cada vez que abria uma gaveta minha, tinha um colapso nervoso, me obrigava a limpar  meus sapatos (coisa que só faço agora, se pisar na lama...rs) . Minha casa era tão limpa e brilhava tanto que eu podia comer no banheiro, se eu quisesse. E ainda era feminista! Defensora das mulheres e dos pobres, mesmo!!! Lembro  uma amiga,  sua protegida,  que sofria abusos do marido alcoólatra e que corria pra nós. Amiga que ela literalmente ajudou a erguer , que se livrou do marido, voltou a estudar e construiu uma vida do zero, com muito sucesso.  De quantas outras? Muitas. Quanta gente batia em nossa porta pedindo a sua ajuda, pois, sabiam, ela sempre ajudava como podia.  Comprava geladeiras, pagava a prestação de fulano, de siclano, emprestava dinheiro pra um,  pra outro, quando podia, fazia o diabo pra manter seus amigos protegidos e amparados.

(Seu único defeito foi morrer jovem...)

Voltando da saudade, eu me pergunto, o que será que contarão aos nossos filhos e netos e bisnetos, sobre a história que vivemos agora?

A história anda nas ruas e a estória vive fechada nos livros.

Os historiadores, já são outro caso...

Como será a história contada por uma estória construída, ela mesma por camadas e camadas de fake news, mentiras, atentados, ameaças, golpes construídos, maquinados, desconstruídos, negados, maquilados;  de filmes  feitos por estes, por aqueles; novelas e seriados enganosos; de relatos falsificados, de perspectivas cegas, de visões canhestras, de arrogâncias admiradas?

Mais uma vez Platão, o herói mais que perfeito: a verdade existe, mas nunca aparece...

https://www.youtube.com/watch?v=k3qgrSon4To

Mulheres do século XX

Repostando: Artigo publicado no extinto Jornal Virtual "Trem de Ler" em out/2017



(Mulheres do século XX), cujo nome no original é o mesmo (20 th Century Women, 2016) de Mike Mills, mostra logo de cara, que tem um título pra lá de pretensioso. Senão vejamos: o que esperar de um filme com esse nome que mais parece um título apropriado para um documentário que envolvesse uma amostra considerável de mulheres? No mínimo que ele pretenda ser a representação das mulheres, digo , da categoria feminina no século XX, mas como logo vemos, não passa de efeito retórico, já que estamos falando aqui de uma amostra de três mulheres(três!!!!)

Bem , alguns dirão, é a visão particular do cineasta. Correto, concordo e no caso então, seriam essas  três mulheres  que , segundo ele, representariam uma pequena amostra do imaginário feminino do século XX? Percebem como continua pretensioso?

Não há desculpas para um título desses...

Estou sendo chata implicando com um título? É desses títulos que nascem o engano das coisas...

O filme pelo menos deveria abarcar mais diversidade, conforme a lógica do politicamente correto. Mas não. São três mulheres brancas, americanas, da classe média, se é que isso representa para o cineasta “a mulher do século XX”.

O século XX, coitado, mal esfriou no túmulo e já estão fazendo representações sobre ele. Como se um século batesse a porta na nossa cara e dissesse: “agora me avaliem, me escrevam, me transformem em papel, em história, em emblema, em símbolo”. E cada um escreve a história particular que bem entender.

Não é bem assim. Ainda vivemos os ecos do século XX, a maioria de nós nasceu no século XX e não tem por que agir como se falássemos das “Mulheres da idade média”, Mulheres da idade da pedra” ou mesmo “Mulheres da era vitoriana”, indicando algo que ficou bem lá atrás, como se ainda não experimentássemos na nossa própria pele, nos nossos poros,   o que foi  e ainda é o século XX em nós.

Dito isto, o filme é bom. Gostoso de assistir, embora, ao final deixe um gosto de parecer estar faltando alguma coisa. Annete Benning dá uma banho, como sempre. 

E é justamente a sua personagem, a mais carismática. Ela nasceu nos anos 20 e teve seu filho mais tarde o que a afasta no sentido de compreendê-lo, já que ele é um temporão( e a historia se passa lá pelos idos anos 70). Ela pede a ajuda de duas outras mulheres para educá-lo e se aproximar dele: uma fotógrafa que aluga um quarto em sua casa e a outra é a própria amiguinha do filho que vira e mexe pula a janela pra dormir com ele (mas só dormir, literalmente). Aqui a representação dessas mulheres já e bem avançadinha pra época e jamais poderia ser vista como uma representação das mulheres dessa época.



Senão, vejamos: Annette Benning é divorciada, trabalha fora, aluga quartos na sua pequena mansão deteriorada e, como é muito autocentrada, independente,  e confiante, os amigos do trabalho chegam a pensar, erroneamente,  que ela fosse lésbica (isso é dito por um deles que a convida para sair). A maioria das mulheres nascidas nos anos 20 não trabalhava fora, dependiam do marido e muito poucas se divorciavam, não tinham aquela independência toda, mas a representação desse cineasta são seres de exceção, como fica claro.

E vamos mais: a ruiva fotógrafa( Greta Gerwig) aluga um quarto na mansão,  tem um câncer(benigno), e vai ser a mentora do filho de Annette. E como ela vai fazer isso? Através de livros feministas que ela empresta seguidamente ao filho de Annette para que ele saiba como conquistar as mulheres, segundo ela. Essa personagem, aliás, tem diversos tiques extravagantes como o de chamar friamente, do nada, um homem pra transar com ela. O homem em questão é o personagem assustado de Billy Crudup que aparece na história e mora na mansão, mas nada se sabe dele, porque a história é das mulheres, obviamente e no ato, ela pede que ele represente um papel que ela lhe dá. A cena é um pouco triste.

E ele diz: 

“- Eu não posso ser eu mesmo?”

Não, ele não pode ser ele mesmo, porque ali ele é mero apoio emocional das mulheres. O coitado passa o filme inteiro tomando uma série de fora delas e sendo compreensivo e prestativo, inclusive reformando a mansão. Um galã de plantão, pau pra qualquer obra.


A personagem de Elle Fanning  é uma menina mal resolvida, com problemas com a mãe, que resolve transar com muitos meninos diferentes. Há a cena de uma possível gravidez , felizmente não confirmada , porque se o filme descambasse pra questão do aborto, já ia virar uma outra história. Felizmente esse cineasta tem elegância.

Quando é indagada pelo seu amigo de “por que faz isso, se não tem orgasmos?”, ela responde através do alter ego da lente do cineasta(que muitas vezes é invasiva, como um narrador intruso) fazendo um “relatório” dos meninos com fotos e frases poéticas e esteticamente muito bonitas do “por que fazer sexo”, mostrando que, para as mulheres as razões do sexo vão muito além do orgasmo. Ponto pro filme. Essa cena é de longe, uma das melhores...

Elle Fanning

 A cena ridícula,  é a do adolescente que após ser escolado por um monte de livros feministas dados pela sua amiga, bate num colega, depois de um diálogo risível, que é mais ou menos assim:

“- Ontem eu transei com a fulana e ela gozou...
- Como você conseguiu isso? – o nosso herói pergunta.
- Com o meu pau...- diz, simplesmente, o outro.”

E o herói sai na “porrada”, porque, independente da mentira do outro, para um  feminista é um verdadeiro insulto,  saber que alguém atinge orgasmos dessa maneira tão tosca , sem clitóris...

Se não fosse a mania de Hollywood de fazer apologia disso ou daquilo o tempo todo, eu diria que o filme era excelente, mas como descamba para a pregação ideológica, essa praga, da qual, parece, ninguém que trabalha com arte neste mundo escapa, é apenas um filme bom.

Pena.





Balanço do ano: venceu a anticultura na música


Repostando: Artigo publicado no extinto Jornal Virtual "Trem de Ler" em Novembro de 2017


Anita lançou um novo clip que, mesmo que você não queira assistir, em algum momento ele vai “cair” sobre você. Se você não gosta de Anita saiba que ela é a mulher mais importante do ano na área cultural brasileira e já está fazendo carreira internacional. Pablo Vittar, apesar de ter emplacado um prêmio na Globo dado pelo Faustão de melhor música do ano, com K.O(eu também não sei o que essa sigla significa),  perdeu o “título” porque bem, Pablo não é exatamente uma mulher, embora  ela goste de homens,  ainda tem gogó, bunda chapada de homem, e não tem celulite, então...

Anita se pronunciou dizendo que o ano de 2017 foi maravilhoso pra ela com muitos progressos, no que está certa. Cantou com Pablo, cantou com uma cantora australiana, Iggy Azalea, e cantou com mais alguns que fazem clips de primeiro mundo e música mascarada, mercadológica e prostituída do quinto-dos- infernos, exatamente o que o povo gosta e consome. Sem falar que conseguiu emplacar entre os 50 primeiros lugares do mundo todo esse “hit”, que se chama gloriosamente, com muito orgulho: “Vai, malandra”.




Um dia ela vai cantar com Beyoncé, a diva atual da música americana, o que parece ser o sonho de consumo dela, já que vive imitando Beyoncé por aí. Eu não me atrevo a dizer que não, porque a humanidade caminha exatamente para o fim do mundo. E, se Roberto Medina virou o nariz pra ela no ano que passou, ela já está confirmada no próximo Rock in Rio, inclusive na versão de Lisboa. O que é um prêmio de reconhecimento, como se ela fizesse boa música...

Numa situação dessas o nome “Rock” ligado ao evento fica até ameaçado, sinceramente. Como Roberto Medina já encheu as “fuças” de dinheiro e está se lixando pra esses detalhes puristas, nada vai acontecer e o Rock in Rio simplesmente passará a ser um evento mais “democrático” porque nesse país o que vale na área cultural é a grana e o coro dos contentes.

O que me espanta em Anita são suas contradições: ela é simpática, empresária competente, brejeira, e ao invés de usar isso sutilmente a seu favor, e ao nosso favor(porque somos brasileiros e queremos que Anita nos represente bem, leia-se),  esculacha, vulgariza, flerta com o mau gosto e presta um desserviço à cultura...

Ela chegou a fazer vídeos cantando razoavelmente bem (embora em inglês ), fez uma parceria que ficou bonita com Vitin em “Cravo e Canela”(que ninguém viu, por que será?) mostrando que pode fazer música brasileira  de qualidade  e ser a cantora que esperamos que ela seja,  mas voltou às raízes do mau gosto(é isso que vende)  e resolveu nos brindar como  a rainha da favela e dizer que “tem orgulho da sua cultura”...

Que cultura?  Isso não é cultura, isso é subcultura. O funk é a maior falácia cultural que vivemos atualmente no Brasil. E o mal que ele provoca é incomensurável...

E, pasmem, existem doutores, mestres, pós-doutores, pós-pós-doutores etc, defendendo essa subcultura, com um argumento único(nunca vi nenhum outro):  o de que ele é a expressão popular,  legítima e genuína das favelas, como o samba o era na época da malandragem e tudo o mais.

 Não é a mesma coisa. E o funk, longe de ser a única expressão cultural das favelas, funciona  mais como  um bandido, um ladrão mercadológico que rouba e sufoca  a expressão cultural verdadeira das favelas ou a que elas poderiam vir a ter, a ser, a criar. Portanto, o funk é silenciador de consciências verdadeiras da “expressão dos pobres e oprimidos”, que nesse caso, são oprimidos mesmo. Imagina ouvir só isso desde que nasce até morrer? Opressão pura. Lavagem cerebral.

Quem disse que os “favelados” querem ouvir só funk? Ou fazer só funk?

Tenho alunos que moram nas comunidades, e muitos são rockeiros, gostam de MPB, de Tim Maia, estão antenados com músicas modernas pop do mundo todo, alguns conhecem Villa Lobos e outros são sambistas que conhecem Noel Rosa, Cartola, etc. Alguns fazem raps com conteúdo social, samba de tradição etc. Conheceram música através de seus pais, de seus avós, da internet ou de professores de música bem intencionados ou outros professores, amigos etc.

O mundo não gira ao redor do funk para eles que estão lá nessas comunidades e nem sentem que aquilo seja “a expressão da sua cultura”, muito pelo contrário. Eles pensam em outras coisas além do universo funkeiro que só fala de sexo, bundas e mais sexo e bundas...e sexo e bundas...esqueci alguma coisa!?!?!

Ah, acho que esqueci: esse é o funk de Anita, bem leve. Algo cor de rosa. Quase cheirando a flores, mas, falemos do funk batidão pesado: o da polícia, do “é nóis”, do banditismo, das drogas, do estupro, da língua portuguesa ultrajada...

Tá faltando alguma coisa?

Isso me demandaria horas e horas de argumentos inúteis, porque quem gosta de “funk” (funk na verdade nem é isso, é algo bem melhor, mas essa é outra discussão) nunca vai aceitar nenhum desses argumentos. O único argumento a que eles se apegam, é aquele que eu falei ali em cima. E nós somos obrigados a ouvir essa “pérola cultural” de Anita, não só nós, como os “pobres e oprimidos” da favela:

Vai, malandra, an an
Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum
An an, tutudum, an an
Vai, malandra, an an
Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum
An an, tutudum, an na

Ou de Valesca Popozuda, em “Agora virei puta” uma pérola já antiga, mas bem emblemática do funk:
 
Só me dava porrada!
E partia pra farra!
Eu ficava sozinha,esperando você
Eu gritava e chorava que nem uma maluca...
Valeu muito obrigado mas agora virei puta!

Valeu muito obrigado mas virei Puta!
Valeu muito obrigado-gado-gado...
se-se-se-se-se-se-se-se uma tapinha não dói..
eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu falo pra você...
segura esse chifre quero ver tu se foder!
segura esse chifre quero ver tu se foder!

E a mesma Valeska em “Late que eu tô passando”:
Late, late.. late que eu to passando vai
Late, late.. late que eu to passando vai
Late, late.. late que eu to passando vai
Late, late.. da patinha, vai vem!
Late, late.. late que eu to passando vai
Late, late...

Um primor...

 Ou de Tati Quebra Barraco, em “Boladona”:

Na madruga boladona,
sentada na esquina.
Esperando tu passar
altas horas da matina
Com o esquema todo armado,
esperando tu chegar
pra balançar o seu coreto
pra você de mim lembrar

Sou cachorra sou gatinha não adianta se esquivar
vou soltar a minha fera eu boto o bicho pra pegar

Sou cachorra sou gatinha não adianta se esquivar
vou soltar a minha fera eu boto o bicho pra pegar
É pouco?

Com a “cachorra” institucionalizada na sociedade, ainda se espantam de que as mulheres não sejam valorizadas. Mas, essas “cantoras” são símbolos, para o feminismo, de emancipação. Elas as enxergam como uma afirmação de sua bandeira de luta.  Eu fico besta, acho que está a me faltar um neurônio...

O Carta Capital publicou um artigo de um criminalista, Nilo Batista, indignado com o fato de que o baile funk carioca para ser realizado necessita de tanta burocracia,   que se torna quase inviável de acontecer.

Por que será que o baile funk necessita de todo esse aparato? Essa é a pergunta que ele deveria fazer e não ficar indignado...

Queria saber o que esse doutor acha da qualidade da música de Anita. Mas, sobre isso, ele silencia. Elementar, meu caro Watson...

Veja bem, quero deixar claro que não sou contra gemidos, simulações de sexo e tudo o mais na música, aliás,  o rock é cheio disso, lembrem-se de Elvis Presley. No caso dele, a elegância era tão grande que bastava uma reboladinha de quadril, mas, embora alguns se aproveitem disso para dizer que Elvis também chocou as consciências de seu tempo eu já me adianto dizendo:  “Não,  senhores, Elvis fazia música na melhor tradição do gospel, do blues, country e folk.  Sua bagagem musical era enorme, lembremo-nos que ele nasceu em pleno Mississipi, onde a música negra americana deu origem ao Blues.  E, last but no least,  ele tinha um vozeirão.”

Elvis e a rebolada de quadril
E, além de tudo, o rock sempre chocou as consciências, mas musicalmente o  rock está a anos luz da batida funkeira primitiva chamada de “genial” por Fernanda Abreu. 

Fernandinha Abreu disse num documentário, depois de afirmar que o funk era dono de uma sonoridade “genial” e tornar-se uma das divulgadoras legítimas dele entre a suposta “elite cultural”(que na verdade não existe mais no Brasil):

“Acontecia uma coisa terrível e era culpa do funk, tudo era culpa do funk...acontecia um assalto e era culpa do funk; um arrastão, era culpa do funk e isso e aquilo era culpa do funk...”

Se era culpa do funk, eu não sei, só sei que Fernanda Abreu não está autorizada pra falar do que é o estrago dessa cultura funkeira entre adolescentes. Joga ela um mês dando aulas(de Língua Portuguesa!) na baixada carioca com adolescentes “educados” pela cultura funkeira e eu aposto que ela vai mudar o modo de pensar em dois minutos. Taí uma boa educação musical: torturar alguém com o tipo de música que ele chama de “genial”.

O fato é que Anita depois de subir numa moto com a bunda e as celulites todas de fora, com comentários no clip: “olha lá a bundinha” e tudo o mais dos valentões machos parados na frente da favela, ofendeu as feministas de plantão. É de matar de rir, se não fosse um pouco triste.

(Eu não sei se sobra algum raciocínio nessas feministas...)

Uma colunista da Folha, Mariliz Pereira Jorge, assinalou que Anita “incomoda por não se preocupar com ninguém”, numa escrita  enaltecedora da “independência” de Anita e que ela só estaria representando uma “personagem”, mostrando exatamente o que acontece nas favelas, “sem  exaltação nenhuma da objetificação das mulheres”, simplesmente mostrando “a vida como ela é”. E , para mostrar tudo isso, obviamente,  ela “encarna a cachorra do funk”.

Bom, não podia faltar a cachorra, claro. Nós entendemos isso. As feministas fazem questão da personagem cachorrona...

O que não concebo, Dona Mariliz Pereira, é dizer que não houve “exaltação da objetificação das mulheres” no clip. Deixa eu ver se entendi: tudo aquilo mostrado de forma nua e crua, com aquelas mulheres balançando as pernas (e mostrando algo mais) na laje, como num filme de Hollywood(quem nunca viu nos anos 50 uma cena parecida com mulheres expostas em fila balançando as pernas?) transplantado para a favela brasileira num belo dia de sol, é só a realidade sem exposição feminina? Ah, sim. Não tem estetização, nem uminha??? Sei.

Os anos dourados e machistas: representação longe do "Vai malandra"

Anita é um gênio das finanças mesmo: enquanto engorda sua conta bancária, consegue ser feminista e machista ao mesmo tempo.

Eu aqui me importo com a questão musical, pura e simples. É isso o que me interessa.  Para mim tanto faz que as feministas se estapeiem para decidir se Anita lhes representa ou não. Anita quer vender. Dona Mariliz Pereira Jorge também parece ser fã de funk, pois diz no final do seu artigo:

“Um detalhe, só um, sobre o qual quase ninguém falou – a música. É muito boa. Já é o hit do verão”

Bom, eu só não sei em que mundo a senhora vive porque aqui no meu mundinho e de meus amigos, muitos dentre eles, músicos, não chamamos aquilo de“hit”. Não precisa ser um Beethoven para ver que aquilo sequer é música, é um engodo. Que a senhora e outros engolem como pílula a seco.

Mas se alguém aí pensa que só aqueles que têm mau gosto é que aplaudem  essa “música”, estão muito enganados. Tenho visto gente com o juízo bastante perfeito e com as capacidades cognitivas em seu estado absolutamente normal aplaudir tudo isso. O motivo?

Simplesmente são pessoas que dizem, no caso de Pablo Vittar, por exemplo, que é muito importante que ele/ela faça sucesso em nome de todos os homossexuais. Peralá, se eu fosse homossexual, juro que não faria questão alguma que Pablo me representasse.

Será que os homossexuais não podem ser lembrados por algo melhor do que a música de Pablo Vittar? Porque eles não escutam Liniker, por exemplo? Ele também é homossexual, e se veste de mulher às vezes, ou seja, é um travesti, já que isso é tão importante para essas pessoas e não a música por si mesma.  Junto com Johnny Hooker ele  gravou  “Flutua”, um blues excelente que fala por si só.  E, além dele, existe muita coisa boa totalmente desconhecida na música brasileira atual, que não chega nunca no grande público...

Liniker e Johnny Hooker

Quão longe isso ficou de Ney Matogrosso, por exemplo, que no meio da ditadura surgiu com um personagem sensacional no grupo Secos e Molhados, criando músicas inesquecíveis, poéticas, atrevidas, com bom gosto e qualidade artística, que todo mundo cantava e conhecia muito bem. E, a não ser para uma pequena parte dos conservadores da ditadura, ninguém nunca se incomodou com as vestimentas exóticas deles, nem com a sexualidade que foram plenamente absorvidos pela cultura. A diferença é que eles faziam música...

Secos e Molhados

(A propósito Ney era o único bissexual, os outros eram hetéros, se é que isso importa a alguém, deixo aqui como curiosidade.)

Perceba que existe diferença entre fazer música, ou produzir uma coisa que não é bem música, mas que alguns querem que aceitemos como música.

A própria Tati Quebra Barraco deu uma entrevista no “The Noite” dizendo mais ou menos algo como: “o que o funk faz é juntar uma palavra na outra e, rapidinho dá certo.... agora ser cantor acho que dá muito trabalho, tem que estudar, mas, enfim cada um com seu cada um, eu sou MC não cantora”. Bom, se ela mesma diz que não faz música, quem somos nós pra discordar?

Achei sensacional. Pelo menos se trata de uma mulher sincera que sabe exatamente o que está vendendo...
Tati Quebra Barraco: "Não sou cantora, sou MC"



Mas, agora é assim: a área cultural foi invadida por pessoas que justificam o mau gosto, o baixo nível da produção, o aceitam e o elevam em nome de alguma bandeira social e uma plataforma política. A cultura deixou de existir por ela mesma e com isso, está agonizando. Até virar pó.

Não é necessário erguer uma bandeira de representação de classe na música e na cultura em geral. Mas, no momento em que vivemos tudo virou bandeira de “classe”, que só existe para dividir as pessoas: “ser transsexual”, “ser negro”, “ser mulher”, “ser feminista”, “ser homossexual”, “ser heterossexual”, etc. Tudo agora pressupõe que haja uma “classe” e uma representação dessa classe.

Esquecemos que pessoas são pessoas e nada mais!

O que importa é não produzir lixo...

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Fahrenheit 451: o fogo numa caverna de Platão


   O filme do diretor Rami Bahrani,  originado do livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury publicado à época da  Guerra Fria,  mostra uma sociedade futurista onde livros são proibidos e queimados (a 451 graus F, o que dá título à obra) por um corpo de bombeiros com a função exclusiva de se dedicar a este feito.
   "O Instituto", como é chamado o “poder superior”, uma espécie de governo grande irmão, com olhos por todos os lados e verdades manipuladas, crê que “saber é se confundir”, portanto trabalha “a favor” da humanidade e do próprio sistema, poupando os indivíduos das escolhas que pretendem evitar.  Para o "bem" deles e da sua felicidade, obviamente. Assim lhes são proibidos a leitura, o conhecimento dos livros escritos e/ou do acervo da internet.

Imagem do filme (1966) de François Truffaut
 Para isso, naturalmente, embora tudo seja feito às claras e transmitido em redes coletivas , tudo é manipulado.  Até chegar a cena em que uma mulher é descoberta com uma biblioteca monstra e resolve incinerar-se junto com os seus livros. Ao morrer grita: “Omnis”.
  Depois se fica sabendo que omnis (do latim: inteiro, total, de todo tipo etc) é um dispositivo que contém todo o segredo, todo o conhecimento produzido pelos homens através da internet e que uma cientista guardou dentro de um pássaro, que deverá ser libertado e reproduzido rumo ao Canadá ou algo assim.
  Como na caverna de Platão, um dos integrantes do corpo de bombeiros, sai da sua ignorância ao salvar um dos livros que incinera todos os dias. O livro salvo não podia ser mais simbólico: “Notas do subsolo” de Dostoievski. Curioso,  começa a ler ao mesmo tempo em que descobre essa sociedade secreta que , entre outras coisas, decora livros de memória, além de serem detentores do “OMNIS”.
  Mais importante do que explorar o roteiro em si, já que o filme, não é lá grande coisa (cheio dos tradicionais clichês e pasteurizações dos filmes americanos) , é refletir sobre a rede de significados pontuados aqui e ali ao longo da história propriamente dita.
  Uma das personagens da sociedade secreta, Clarice, diz num certo momento:


“Não foi o instituto que fez isso conosco, nós fizemos isto a nós mesmos, as pessoas pediram  por tudo isso.”


  É difícil imaginar que os homens peçam por algo que os limita, como a própria ignorância que impede a sua liberdade. Mas é exatamente isso o que acontece. Também conosco, que estamos sujeitos a uma sociedade tomada pela ignorância coletiva, como uma bomba letal.
   A verdade, ”o caos do conhecimento “ , como diz o Capitão do corpo de bombeiros, é o que as pessoas evitam quando se negam a conhecer não os fatos, que esses podem ser transmitidos em praça pública , e cada um dá aos fatos a interpretação que bem lhe convém, mas sim, a verdade , ela mesma,  que nunca é fácil e é por si mesma escondida entre camadas e camadas de livros e publicações e memórias e acontecimentos e mentiras . É de se perguntar se ela existe.
  Ela é o caos, por si mesma.Não é algo que se encontra ali na esquina. 
  Não é que não exista, é que não é fácil encontrá-la e talvez seja até impossível, mas nem por isso, quer dizer que não exista. E afinal das contas, convenhamos, não tem muita gente assim interessada na verdade, ou melhor dito, no "caos do conhecimento".
  Conhecer dá trabalho. Não é serviço pra qualquer um...tem que se estar muito bem disposto (inclusive a algumas decepções,  como o pobre bombeiro, que jogou anos de sua vida por mentiras).
  As pessoas conhecem aquilo o que querem: geralmente apenas uma interpretação dos fatos. O que já configura que elas conhecem apenas aquilo, que, de antemão, já decidiram acreditar.
  E o fato de vivermos numa sociedade em que livros ainda não nos são proibidos, não melhora nem um pouco a nossa situação.
  Há gente que, de bom tom, prefere a ignorância escolhida. Há os que continuam a ver as sombras na parede, monótonas, e para sempre iguais. Há os que se arriscam ao acaso tenebroso, caverna adentro, para qualquer lado, às cegas, tentando enxergar, por sorte talvez,  uma luz no fim do túnel.
  E, poucos, talvez muito poucos, continuam sabendo que essa MERDA da verdade é um pássaro livre que corre continentes, sem nos dizer aonde vai...


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Lobos predadores, mulheres e assaltantes


Dia desses sofri uma tentativa de assalto. Com a arma apontada para mim, sem pensar, fiz o inusitado – fugi do assaltante, que não atirou por algum motivo que me escapa (Faltavam balas? Ele não queria atirar? Ele estava nervoso? A arma era de brinquedo?) Nervosa,depois de ter escapado, pedi proteção de três homens que passavam na rua pra me conduzir de volta pra casa. Um deles, o mais forte, logo disse:

- Eu não, o assaltante pode voltar pra ir atrás de você...

E se esquivou praticamente correndo, quase como se eu fosse a própria assaltante. Os outros dois, curiosos, queriam saber como tinha sido tudo, ao invés de andar comigo até onde eu precisava.

Deixei-os, de pronto, lá na rua com sua covardia pouco solidária e voltei pra casa sozinha, morrendo de medo. Chorei com o porteiro do prédio, que foi homem o suficiente pra me consolar.

Foi quando me lembrei do filme “Thelma e Louise”, de 1991. Desnecessário reafirmar o brilhantismo do diretor Ridley Scott, nesse filme.  

Tudo está lá: as cenas majestáticas, de tirar o fôlego, uma fotografia perfeita, atores sintonizados, Brad Pitt em início de carreira e o feminismo, que na época, era só as reivindicações as mais banais das mulheres.

Elas queriam ter o direito de dizer não ao sexo, mesmo que tivessem dançado ou paquerado toda a noite com um homem; o desejo de viajar para onde quisessem; o desejo de pegarem a estrada sem ser importunadas pela paquera idiota de um homem qualquer, que decide fazer gestos indecentes enquanto elas dirigem seu carro e por aí ia.

O final é trágico. Essa tragicidade do filme se dá pelo ato impulsivo de Louise quando mata o agressor de Thelma. A partir daí, tudo o que se segue, vem em consequência desse ato.

Louise: armada, mas não perigosa


Qual a escolha de Louise? Se não matasse, Thelma seria estuprada; matando, cometeu o crime. Dilema. Ser vítima é melhor do que eliminar alguém? Essa é uma questão.

Por outro lado se o homem machista, o porco chauvinista naquele caso, não existisse ou fosse um homem educado, Thelma não correria riscos.

Educar os machistas é o desejo de toda mulher que se preze.

E aqui chegamos às reivindicações feministas de nossa época. São inúmeras demandas, muito além do direito de ir e vir sem ser incomodadas pelo operário de obra que nos grita: 

- Gostosa!

E, para as feministas radicais de plantão, devo dizer que há mulheres(não sei se machistas ou simplesmente “normais”) que gostam de ser admiradas pelo operário de obra. Inclusive tenho uma amiga que chegou a dizer, numa certa vez:

- Estou tão mal que nem operário de obra mexe comigo...

Obviamente falou isso de uma maneira lamentosa.

Mas, isso, não interessa às feministas, of course.  Também não lhes importa que a sexualidade masculina tenha um quê de selvageria em si mesma.

A feminista atual deseja que o homem se comporte como a sua melhor amiga, de preferência.

Bom, mas houve tempo em que homem abria a porta do carro para você entrar e sim, falava coisas indecorosas no seu ouvido quando ninguém estava olhando e sim, pagava a conta inteira do bar e sim, trocava os pneus furados e sim queria, (que horror!), transar na hora errada e ainda discutia que não ia ver aquele filme idiota com a Meg Ryan, até você ficar bem irritada, entre outras coisas, mas, (oh saudade!), tentava te proteger de alguns percalços... 

Meus amigos, isso acabou!

O romantismo está morto. E aquele cavalheiro estilo Sr. Darcy,  que resolvia todos os problemas, saído de um livro de Jane Austen, não existirá mais no futuro. Também não espere que algum homem a livre de um assalto.

Como Lagertha, a personagem de Vikings, nesses tempos selvagens, você mulher, deverá estar pronta para o que der e vier. De preferência com uma arma na mão(Lagertha tinha seu escudo, sua fúria, sua espada). Lembre-se: nenhum macho vai te proteger DE NADA! 

Lagertha: Emblema de mulher(blindada)do futuro

Vivemos tempos em que quanto mais temos, mais queremos e nada nos basta. Nem nos salva. 
 
Depois de vários avanços como a “Lei Maria da Penha”, que protegeu a mulher de seus machos agressivos e verdadeiramente danosos, esperava-se que a mulher se sentisse segura. Mas não. Isso não aconteceu.  As mulheres ainda se sentem desprotegidas, as feministas ainda não estão felizes e os homens agressores ainda são muitos e, como criminosos reincidentes, provam todos os dias que ainda não estão suficientemente educados. Se ficarão algum dia, é o que resta saber. Porque o fato, é que alguns nunca aprendem, por mais leis e regras que se façam. E continuarão a serem porcos predadores da feminilidade.

Por conta disso, nós, os outros, os ditos “normais”, os educados, os que não temos nada com isso, teremos que pagar.

E agora choverão cartilhas e regras de comportamento entre os sexos, porque obviamente um homem normal, esse pobre comum que não tem nada com isso, não vai saber mais o que é ser homem e as mulheres, todas, deverão agir conforme dita a última modinha das feministas para não serem consideradas machistas.

Vide o que aconteceu com aquele protesto de Catherine Deneuve e as reações feministas em cadeia, confundindo alhos com bugalhos;  o que acontece na Suécia a cada dia, onde os homens, descendentes de vikings, são agora cordeirinhos mansos que não conseguem e não devem proteger suas mulheres dos ataques de terceiros, pois elas mesmas devem se proteger por si sós, ou sofrer, caladas, os abusos e danos daqueles que nunca aprendem e nem querem aprender porque são, por natureza, lobos predadores.

E nós? Devemos ser ovelhas seguindo o rebanho?

Por causa de uns - os mal comportados - pagam todos.

Resta saber se os homens ainda saberão como se comportar entre as mulheres ou se, no pior dos casos, entraremos na inusitada era em que as mulheres terão que ser o sexo forte e cuidar de seus homens que não saberão como agir e o que fazer – confusos, sequer saberão qual o seu papel de homens.

Se ainda existir algum homem até lá...