terça-feira, 13 de março de 2018

"Get out": Batendo na tecla do racismo

Daniel Kaluuya em "Get out"


Nada como um filme americano para deixar bem claro, bem óbvio, bem rasteiro, o que a sociedade pensa sobre alguma coisa. E como andamos para trás ao invés de ir pra frente...

É como se os americanos consumissem toda a merda da humanidade e depois, despejassem o seu vômito sobre ela. É o papel de Hollywood. Eles têm se aplicado nisso, feito o dever de casa direitinho e sem nenhuma elegância nem pudor, voilà. E “The oscar goes  to”...

E todos compramos toda essa velhacaria no próximo ano. E no próximo e no próximo.  Com direito a tapete vermelho, divas vestindo Armani, discursos hipócritas e piadinhas sem graça. Não é maravilhoso? Eis uma coisa que eu admiro do fundo do coração: a cara de pau desses americanos. 

Mesmo em questões delicadas, como o racismo, eles não guardam pudores em falar o que desejam, o que lhes vai pela brilhante cabeça, da forma que bem entendem , cuspindo suas tacanhas ideologias sobre as pessoas.

Sua imaginação sem requintes e sem limites é que tornam possível  que um filme como “CORRA”(Get out, 20017, Jordan Peele), Oscar de roteiro original,  seja essa obra  prima quatro estrelas, segundo a crítica que temos hoje que eu nem calculo quem são. E nem quero conhecer.

Um negro namora uma branca, e ela o está levando para conhecer os seus pais, numa relação bem esquisita desde a primeira cena, com a trilha sonora dando dicas da esquisitice o tempo todo, marcando num suspense bem óbvio, como se o telespectador não racionasse, e precisasse de música pontual para entender o filme, musica  que funciona como hipnose nas cenas (bem  a  sintonizar com uma de suas personagens, como veremos) .

E quando a namoradinha diz para o namorado , apreensivo com o encontro com os pais dela: 
-  Fique tranquilo o meu pai votaria no Obama a cada vez que ele se candidatasse. Eles não são racistas.

O telespectador, além de ficar constrangido com essa frase ridícula e ideológica até a raiz do cabelo, só se for muito idiota, para não saber que deverá esperar pelo pior.

E é claro que esse pai só podia ser racista. Mas, muito pior do que um racista é  um racista psicopata, aliás,  uma família inteira, uma comunidade inteira de psicopatas, que tal?   Por que não?

Hollywood é assim mesmo. Sutil como um véu de noiva ou um pudim de claras. Isso , já sabemos.

Na casa da prometida, o namoradinho talentoso  (ele é fotógrafo) descobre que a família dela é pra lá de estranha com mãe psiquiatra que hipnotiza os empregados negros  com uma xícara de chá e  tem amigos brancos  dignos de um romance cavernoso de Agatha Christie, assustadores e neuróticos;  um irmão, ruivo , sardento , violento e  claramente maluco e o pai, incestuoso  neurocientista vingativo e ressentido,  filho de um atleta que perdeu, (adivinhem?)  a competição de Olimpíadas (me parece, não me lembro ao certo) para um negro, na época de Hitler.

Nossa! Pode acontecer mais alguma coisa?

O desfile de clichês não pode piorar, vocês devem estar pensando,  quando descobrimos que sim, que pode.

Catherine Keener, a mãe- psicopata racista hipnotizando com chá

O namorado é preso num porão onde vão fazer experiências neurocientíficas com  ele (afinal Hitler não entrou no filme , por acaso).

O que os loucos brancos querem é a força física dos negros, a sua genética superior e, para isso,  os transformarão em meio humanos, meio zumbis,  para lhes roubar o que querem...

As comparações entre negros e animais são constantes (sim, a sutileza), o namorado arranha a poltrona no porão como um bicho enjaulado, os cervos (da floresta) são atropelados, mortos e embalsamados. 

Precisa?

Ao interpretar a “raça” negra como animalidade,  relacionando a selvageria física na tela com os negros , só se reforça uma situação que pode e precisa ser esquecida e superada  a favor dos negros, a favor da humanidade.

Mas Hollywood não está nem aí pra nada disso. Quem se importa?

Mais e mais negros serão tratados como animais nas telas pra jogar nas caras dos racistas o seu ódio e o discursinho de ódio tão na moda que os culpados lhes devem. A quem interessar possa.

E mais não conto porque já contei quase tudo e já fiz o que me propus a fazer. Dizer que o filme é uma bela duma boa bosta.

E, o final é tão ruim quanto o filme inteiro. Pior.  De um mau gosto infantil,  que beira o lamentável. O cômico, no sentido ruim. Faz crer que o filme inteiro não passou de uma paródia enganosa .

Em alguns momentos me lembrou “Mulheres Perfeitas”, com a Nicole Kidman.  Me pareceu até que o diretor,  copiou aqui e ali o estilo daquele outro filme. Sendo que aquele era um bom filme.

Enfim, “Corra” bate na tecla de que os negros são vistos  como animais pelos brancos, que deles , invejam apenas a força bruta, que é o que é usado pra se livrar, afinal,  dos brancos , no término do filme. Elementar, meu caro Watson.

Americanos não conseguem pensar além de uma triste dualidade: o mal e o bem, o branco, o preto, o ruim e o bom. O mocinho e o bandido.E dá-lhe vingança!

A depressão do protagonista, deixa em dúvida,  depois de toda a pancadaria e a matança à la Rambo nas últimas cenas,  se o filme é sério ou é uma mera piada.

Se for a sério, então, negro: Corra, fuja. Os brancos são uma ameaça! Odeie-os como eles te odeiam. É isso que Hollywood está dizendo. E, se for uma piada, bem, o filme continua muito ruim, mesmo sendo uma piada! 

Nada de bom foi acrescentado ao problema racial. Os negros são as vítimas eternas dos brancos e só se livram deles na porradaria...

A crítica o amou.  Sobre isso  nada digo.  

Apenas digo que esse filme apenas me  deu saudades de filmes  como “ADIVINHE QUEM VEM PRA JANTAR?” .

Sidney Poitier e Spencer Tracy, 1967.

Quem se der ao trabalho de ver os dois, vai entender do que estou falando.

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