terça-feira, 7 de novembro de 2017

Empoderamentos 2: Jane Austen para mulherzinhas


Elizabeth Bennet (Keira knightley)


    Eu sou leitora de Jane Austen. Li até Persuasão com aquela heroína insuportável.  Que heroína é Anne Elliot? Tão chata, tão correta, com seu convencionalismo inglês, que dá saudades da “falta de esperteza” de Catherine Morland   em “A Abadia de Northanger”...
   Jane Austen viveu num tempo em que as mulheres não tinham direito a nada, viviam numa prisão, sem direito a herança, sem direito a assinar contratos e reger a própria vida,  com uma educação parca e tudo o que lhes restava, na melhor das hipóteses, era ler romances, aprender línguas, costurar, tocar piano e esperar por um bom casamento. Quando não acontecia, ela era uma espécie de pária na sociedade, sofrendo todo tipo de pressão e bullying social.
    Não é incomum um diálogo didático nos livros de Jane Austen sobre os direitos (inexistentes) das mulheres. E ela acabou sendo fortemente associada ao feminismo, por conta de tudo isso. Mas suas heroínas destroem essa imagem: a própria Anne  -  abnegada, convencional, e excessivamente pura , por exemplo.  Como afirmar esse feminismo numa escritora que escreve coisas como esse trecho que aparece em Persuasão num diálogo entre Anne  e a Sra. Smith:

“- Mas ela não era uma mulher muito inferior?
- Era, e eu levantei objeções, mas ele não me prestou atenção(...)”

   A noção de “mulher inferior”, com o preconceito politicamente incorreto de Anne Elliot não combina nem um pouco com o feminismo de nossos dias, que  com certeza  , não estaria disposto a aceitar essa linha de raciocínio...
   Muitas vezes Jane cria mulheres infernais, chatas, neuróticas, que têm ao lado maridos pacientes, como é o caso de Mary e Charles em “Persuasão”, e Charlotte Palmer de “Razão e Sensibilidade”.
Todas as heroínas de Jane Austen procuram um homem, um casamento, ao final. Elas fogem da solteirice como o diabo da cruz.
   Os finais, embora rápidos e meio frustrantes, são sempre felizes e depois de muita incompreensão e abismo entre as partes, lá está a heroína nos braços do amado, alguns duvidosamente generosos, como eu senti em Henry Tilney de “A Adbadia de Northanger”, um verdadeiro rei de ironias cortantes, mas como Catherine Morland, era uma ingênua e o livro  é uma paródia romântica, cujo ridículo das situações fica evidente o tempo todo,  o divertimento é garantido. Sem falar que as espetadas de Jane Austen (ela é a mestra da ironia fina) estão super afiadas neste seu livro, que é o primeiro e um dos meus preferidos. Eu diria que o grande personagem deste livro é a própria narradora intrusa que Austen constrói e que tira sarro o tempo todo da personagem que criou: romântica, bobinha e facilmente manipulável...mas, pra variar, uma personagem inesquecível!
   Talvez as feministas considerem que a narradora seja uma feminista, que sacaneia a própria personagem que criou , a fim de mostrar como as mulheres eram manipuláveis pelo romantismo vigente. Mas é um nó cognitivo muito grande realizar essa operação mental, pois que Jane dá um final romântico a essa mesma personagem, ou seja, ela não abdica do padrão de comportamento que ela mesma criticou...
    Sobre os personagens masculinos , alguns até “malvados” e sem caráter aparecerão, como Whillowgby,  de “Razão e Sensibilidade” que ainda assim é perdoado por Marianne Dashwood. 
   Marianne é considerada uma feminista segundo alguns estudos acadêmicos, por ter o temperamento imprevisível, “descontrolado” e anticonvencional. Mas, nem tudo é o que parece e um comportamento imprevisível não é, necessariamente, sinônimo de rebeldia feminista...
(Como se uma feminista dessas atuais pudesse amar como Marianne, com aquela entrega total e absoluta, o que eu duvido e muito!!!).

Marianne(Kate Winslet)  no filme de Ang Lee

    O “feminismo” de Marianne se redobra ao final, num conformismo que a faz aceitar a mão do Coronel, já que teve o seu amor por Willowghby, frustrado. Ora, ela não é uma feminista no sentido clássico da palavra, longe disso.  Ela é passional, de um passionalismo  sem limites, razão pela qual, ela explode as comportas e faz entornar as vias do bom comportamento. Marianne manda o convencionalismo às favas porque não consegue ser de outro jeito, seus sentimentos a impedem. Isso fica muito claro o romance inteiro. E,  a não ser que a pessoa não tenha lido o livro aqui citado com o devido  cuidado de não tentar só enxergar exatamente aquilo   o  que quer encontrar nele,  é impossível não constatar que não há nenhuma ideologia ou necessidade de afirmar um caráter revolucionário e feminista no comportamento dessa personagem.
   Marianne ama o amor, antes de tudo. E seu final  fica longe do que se esperaria de uma personagem tão violentamente passional. Ao contrário de encontrar um amor maduro e construir sua “individuação como figura mais equilibrada e racional”, como costumam afirmar os estudos feministas, numa forçação de barra duríssima e muito cara de pau, eu diria que ela encontrou consolação e uma paz na falta de um amor verdadeiro, sufocando sua natureza apaixonada...
   Dentre os personagens masculinos, eu diria que o meu preferido,  o  mais maravilhoso, distante, passional, complexo e contraditório é o Senhor Darcy, o “metidão”  de “Orgulho e preconceito”.

Matthew Mc. Fadyen vivendo |Darcy


    O Sr. Darcy é um manipulador poderoso: considera a família de Elizabeth Bennet  “inferior”, os modos das suas irmãs e até da sua mãe, e aproveitando-se da influência que tem sobre o amigo, Charles Bingley ( que se apaixona por Jane , a irmã de Elizabeth)  o convence, com seus modos elitistas e orgulhosos,   a afastar-se  da família Bennet , mas não hesita em conquistar  a mesma  Elizabeth, para quem ele confessa depois, que lutou contra os próprios sentimentos, mas não pôde evitá-los. Quando rejeitado, diz ofendido:

“É essa a resposta que devo ter a honra de esperar? Talvez eu quisesse ser informado porque sou assim recusado. Sem sequer uma tentativa de polidez (...)”

   (É, ele se “acha” muito mesmo!!!)
   “Orgulho e preconceito”, é tido como um livro também feminista...embora Darcy seja o macho alfa fodão que resolve todos os problemas, rico e poderoso, que compra , inclusive a reputação quase perdida da irmã de Elizabeth(uma ingênua fogosa que caiu na conversa de um mau elemento), numa verdadeira história de Cinderela salva pelo príncipe encantado...
   Como esse livro pode ser feminista? Juro que não entendo.
   Os istas pretendem possuir o mundo todo e sua simbologia...
   Elizabeth Bennet é tão somente uma personagem voluntariosa, que luta por suas opiniões e pela própria felicidade com unhas e dentes, como quando, por  exemplo, rejeita o Sr. Collins,  o primo esquisitão que cisma de pedi-la em casamento:   

   “- A senhorita deve dar-me vênia, querida prima, para que eu possa crer que a sua recusa da minha proposta não passe de palavras ao vento. As minhas razões para crê-lo, são em suma as seguintes: não me parece que a minha mão seja indigna de aceitação ou que o padrão de vida que possa oferecer seja nada menos do que desejabilíssimo. (...)
Como devo, portanto, concluir que a senhorita não está a falar sério ao rejeitar-me, prefiro atribuir a recusa ao seu desejo de aumentar o meu amor pela incerteza, de acordo com a prática corriqueira das mulheres elegantes.
   - Posso garantir-lhe, senhor que não tenho nenhuma pretensão a esse tipo de elegância que consiste em perturbar um homem de respeito. Prefiro receber o cumprimento de ser considerada sincera. Agradeço-lhe mil vezes pela honra que me fez com sua proposta, mas para mim é absolutamente impossível aceitá-la. Meus sentimentos me impedem de fazer isso. Posso falar mais francamente? Não pense que eu seja uma mulher elegante com a intenção de atiçá-lo, mas uma criatura racional que fala do fundo do coração.”
Orgulho e Preconceito

    Como vemos uma mulher que sabia muito bem o que queria. E o casamento na época, além de ser toda a promessa de felicidade que uma mulher poderia ter, podia  ser uma armadilha convencional, da qual as protagonistas de Jane, inteligentes  que eram,  procuravam escapar escolhendo homens que elas realmente amassem. E elas lutavam bravamente pelo amor. Mas, em nenhum momento do livro vemos uma pregação feminista dessa personagem, que faz jogos de linguagem com o homem que a atrai, ao mesmo tempo em que luta para odiá-lo. É um jogo romântico, dos mais conhecidos na história da literatura. A história clássica de amor&ódio.
   Qualquer personagem feminina da literatura que seja interessante e que tenha uma forte personalidade, já decidem prontamente associá-la ao feminismo, numa apropriação totalmente indevida. É dose quando esses grupos radicais se apoderam de autores e ideias que não são suas pra utilizar-se deles como uma falácia de autoridade pra defender uma causa própria, forçando uma barra.
    Não há heroínas masculinizadas em Jane Austen, elas são mulherzinhas procurando o amor, não comem, não dormem e até adoecem na falta de amor. Elas têm, é verdade, uma grande consciência da injustiça à sua volta - que é o mundo regido para proteger os homens. Mas ainda assim, nunca vi uma heroína Austiniana dizer:
   -Ah, estou muito bem sem os homens...por mim, eles poderiam morrer!
   (Como vejo algumas mulheres de grupos feministas vociferarem...). E ouvi até falar de uma que queria denunciar um homem que curtiu várias fotos suas no facebook, como se o pobre coitado fosse um perseguidor...rs.

Hugh Grant e Emma Thompson, Edward e Elinor(Sense and sensibility)

   Jane Austen viveu em outro tempo, e se há uma centelha de crítica nos livros dela aos direitos das mulheres, isso não estava relacionado diretamente a uma cartilha de Judite Butler precoce. Eu aceitaria se as feministas dissessem , por exemplo, que Orlando de Virgínia Woolf antecipa a revolução trans. De qualquer jeito, acho que as feministas de hoje não leem Virgínia Woolf...estão comendo mosca. Melhor pra Virgínia Woolf que assim, pode descansar no túmulo, sem virar símbolo de nada...rs 
     O universo de Jane Austen é notoriamente marcado por uma luta contra os convencionalismos inúteis, a pureza dos sentimentos e a liberdade das emoções.  São mulheres lutando pelo amor, pela proteção de um homem, um amor entre IGUAIS.  Elas não abriam mão do prêmio maior, que no caso, era o casamento. Que restava a uma mulher afinal? É quase como se elas tentassem salvar a própria pele num universo onde quase nada mais era permitido.  
   As heroínas autinianas lutam para não serem párias sociais. Querem conquistar seu espaço na sociedade, que naquele caso, era o amor e o casamento.

   (Sinto quem eu possa ter ofendido com esse pseudo-artigo...) 

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