terça-feira, 9 de maio de 2017

Mudanças à prestação

  Os céus são todos fechados e espessos, se anjos nos visitam, nunca saberemos. Alguém pode chegar de repente, e mudar sua vida, um estrangeiro qualquer, um estranho. Pode. Mas a probabilidade de isso acontecer é de 0,00000001% . O que muda a vida é o nomadismo, segundo Wim Wenders, ele nasce do tédio. Deve ser. Mudar de roupa, de cenário, de cabelo, de casa, de carro, de cidade, de restaurante, são as grandes mudanças das pessoas. É fácil mudar. E paga-se à prestação. Mudanças à prestação. Que aconteceria se sua vida fosse condenada a uma prisão? O passar das horas sombrios, os buracos no teto, lembrando o rosto branco de um amigo, o cabelo de outro, as mãos gordinhas de um filho. Você se perguntaria ainda detrás do claustro, quando te roubassem todos os prêmios da vida? Ou olharia obcecado para aquela borboleta na janela, de passagem, entrando num túnel quente? Pobre borboleta, até pra ela a cidade é hostil. Os muros de pedra rebatem seu canto inóspito sobre a luz do dia, as casas tristes se fecham e o alto da manhã se cansa. Até para os sonhos a noite é hostil.  Pesadelos sim – fortes, como a poluição dos rios, o cheiro do lixo, as latas viradas pelos gatos na madrugada - , rápidos como um temporal de verão , deixam digitais nas olheiras da pele, nos cantos remelentos dos olhos, nas mãos nervosas que você tem de manhã. Finos fios de cabelo voando pela casa. Você está febril, tem a pele quente como em um incêndio perdido numa África distante. As cigarras não se atrevem a cantar. O galo se intimida. Você molha o rosto e enxerga por dentro de si. Seus olhos têm cem anos...

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