quinta-feira, 19 de maio de 2016

Só os de sempre ou volte sempre?

Da série sabor & humor

A experiência de se ir a um bom restaurante nem sempre se resume à qualidade da comida. Pelo menos pra mim, que fico com os sentidos à flor da pele a cada vez que me sento pra comer num lugar diferente...

Eu estava carente, doida por uma comida portuguesa e pedi a minha filha pra me levar no “Gruta de Santo Antonio”. É reconhecido pela boa comida, parece que alguns chefs  famosos comem lá e  coisa e tal.  O estacionamento fica em frente e custa 20,00. Tudo bem. A rua é feia . Horrorosa, pra dizer a verdade, mas a casa é até bonitinha por fora, antiguinha.



É escurinho e simpático no hall de entrada, mas quando se adentra a decoração dá um susto. Não tem nada de aconchegante. Minha filha comentou:

- Parece um restaurante à kilo, daqueles mais caros.

Parecia. Era impessoal e sem graça, não era à toa que as mesas não eram cobiçadas ali naquela primeira sala. Dos que chegavam ninguém parecia querer sentar lá, todos passavam direto.

Entramos numa sala subsequente, mais aconchegante, mas mal avistei uma boa mesa e me dirigi pra ela  toda animada, um cara(que vinha atrás de mim) colocou o celular dele com tanta força em cima dela , como se estivesse marcando gado, enquanto me olhava com cara de mau. Tomei um susto, mas não discuti. Eu vi primeiro, mas ele foi mais esperto , ok.

Fomos pra uma terceira sala, mais bonitinha, com janelas de madeira e um ar antigo conservado, num tom meio artificial, com fotos de ancestrais na parede, para parecer “familiar”, me pareceu... mas,  a luz no teto era totalmente fria, incomodativa. Dava impressão de se estar à noite em pleno dia.  Não sei, achei de mau gosto aquela iluminação, mas gosto é coisa muito pessoal, como se sabe, e talvez haja gente que ache aquele lugar o máximo, vai saber...



Olhei através da janela e vi a luz solar, que entrava teimosamente pelas frestas da madeira. Fiquei com saudades do Seu Antonio e sua bela e perfeita cantina boêmia, com chopp ultragelado e seu camarão no coco, muito louco e amado por Niterói inteira. É claro que a proposta é outra. Ali é um restaurante “de nível”, não uma cantina boêmia, de decoração inteligentemente simples, que aproveita a luz e “descolada” como o seu Antonio.


O atendimento veio a jato. Azeitonas (secas, de vidro de mercado), um pão de matar de bom, manteiga, rabanetes no azeite, do que me lembro. Eu fiquei de bom humor rapidamente, pois, estava cheia de fome e o pão era divinooooo! Depois, o bolinho de bacalhau: autêntico, perfeito, mas já comi mais saborosos(o da minha avó, inclusive, que era mais macio, mais fiapentinho e redondinho...rs) e  até em botecos portugueses do meu bairro que não digo o nome pra não provocar morte.

E logo as mesas ao redor começavam a encher com portugueses. Incrível, só dava portugueses no lugar!!!. O maitre e os garçons cercavam rapidamente as mesas dos clientes preferenciais , foi o que comecei a perceber, quando o garçom da nossa mesa começou a não nos ouvir quando chamávamos. Ou melhor, a virar as costas disfarçadamente e “educadamente”  fingir que não nos ouvia.

Todas as mesas ao nosso redor pediam vinho(algumas “detonavam” garrafas de vinho rsrs), exceto a nossa e uma mesa ao lado, com três homens que pediram Stella, como eu. Devia ser por isso que éramos “esquecidas”...

(Acontece que minha filha ia cantar mais tarde e não podia beber e eu não ia pedir um vinho pra tomar sozinha. Pra ser sincera, hoje em dia, mal aguento olhar pra uma garrafa de vinho, por mais que eu  tente de vez em quando.  Meu estômago já  foi “sepultado” lá pelos anos 90!!!rs)

O homem que “marcara” a sua mesa com o celular, foi prontamente atendido pelo chef que veio pessoalmente falar com ele, contar histórias, rir e contar do jornal em que sua nova receita de peixe sairia publicada. Estava explicada a confiança ao tomar a mesa: ele era um cliente contumaz, tinha direito àquela mesa, certamente, no entender dele.

Depois veio a mãe do chef, famosa, com roupa de chef, distribuir sorrisos nas mesas e conversas com os clientes habituais, coisa que durou uns bons trinta minutos ou mais. E ela ia, pessoalmente, em cada mesa de cliente habitual que chegava, beijava, abraçava, falava das novas receitas... Bom marketing!

Nada contra, mas ela não passou um só minuto na nossa mesa, pra perguntar se estávamos apreciando, como tínhamos conhecido o restaurante, essas coisas inúteis...

Parecia mesmo que não fazia questão de novos clientes. E por que faria?  O restaurante dela está cheio dos portugueses amigos e bebedores do bom vinho, que lha sustentam. Ela não precisa de mais ninguém, claro estava! O restaurante se faz pra quem já está lá.

Uma máfia...rs.

Bem, se eu tivesse um restaurante, faria comida pra impressionar  gente que eu conheço e não conheço, não só meus amigos íntimos, meus parentes, ou clientes déjà vu. Faria questão de clientela nova! Mas cada um com seu pensamento...

Devia estar escrito na porta: “SÓ OS DE SEMPRE” e não como é normal por aí: “volte sempre”...rs.

 A comida veio(não sem alguns aborrecimentos com o garçom , que chegou a olhar atravessado pra minha filha, numa hora em que ela o chamou, e ele estava “ocupadinho” com uma mesa  VIP dos tomadores de vinhos rs) e era uma delícia. Minha filha comentou:

- Parece a sua comida!!!

Parecia.

Eu sou neta de portugueses e cozinho exatamente daquele jeitinho, com aquele temperinho caseiro, só “um pouco” mais puxado, que tive influência libanesa de casamento. Portanto, minha comida é bem como aquilo ali.  Não digo melhor, pois não sou profissional e nem tenho intenção, mas com certeza  mais surpreendente, por causa do toque árabe  (sem querer me gabar e já me gabando...rs).

O momento da sobremesa foi beeemmm mais agradável, pois, por algum motivo misterioso ou simples acaso, foi o maitre que nos atendeu e ele era gentil e cheio de humor.

Minha RELES opinião: comida de " clubinho " gastronômico não é pra TODOS.

Restaurante aberto é pra todo mundo e todo mundo tem que ser atendido com o mesmo entusiasmo ainda que não volte nunca mais lá e mesmo que não beba vinho, o que é irrelevante! Outros voltarão, se...

(E eu voltaria muitas vezes, se... E, talvez, com 10 AMIGOS perfeitos bebedores de vinho, o que é um caso a se pensar, pois não é?)


Sinceramente, não preciso pagar caro pra ir num lugar onde funciona uma “máfia” portuguesa, com todo o respeito pela comida muito boa que comi. Quando eu quiser comida portuguesa de novo em Nikity, vou no “volte sempre com fila na porta”: SEU ANTONIO.E viva a boêmia  sem bullying!rsrsrs



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