domingo, 26 de abril de 2015

Pedaço de vergonha gourmet

Da Série: SABOR & HUMOR

Estava eu nesses dias de desejo de doce bem doce, quando me lembrei que antes havia na Torta&Cia uns doces portugueses desse tipo. Corri pra lá com minha filha. Nada de doces portugueses. E nada de atendimento.

Duas atendentes consertavam a máquina de café, preocupadas e parecendo não saber muito  bem o que faziam.  Outra andava de lá pra cá desocupada e parecendo meio tonta, não nos olhava e, consequentemente, não nos atendia. Uma outra, estava no caixa mas ninguém estava pagando.  Ela nos viu, mas não tomou conhecimento real da nossa presença, era como se não estivéssemos ali. Não chamava as outras pra nos atender e não dizia nada. Olhava pro espaço, para as galáxias...

O ar condicionado era um castigo mortal. E ia exatamente em cima da nossa mesa. Mudamos para o balcão lateral, único lugar desocupado, mas também pouco aconchegante, só menos gelado.

Minha filha diz, de repente:

- Lembrei de “Bar Rescue”.

-Pode crer, Gordon Ramsay ia ter muito o que fazer por aqui também...

Resolvo chegar ao balcão:

- Tem alguém pra atender nas mesas ou a gente pede aqui mesmo?

Uma delas se movimenta nervosa:

 - Ah, tem sim. E olha pras outras atarantada como a dizer: “Qual de nós vai lá?”

As outras, "putanas", a ignoram solenemente. Ela ainda demora a vir. Pedimos, finalmente:

- Boa tarde, eu vou querer um pedaço da torta de limão, diz minha filha.

-E eu a de damasco.

Viro pra minha filha:

- Melhor pedir a de chocolate agora ou depois?

A garçonete olha confusa. Esclareço:

- É que vamos pedir a de chocolate também pra dividir.

- Não, não, pede depois, diz minha filha, percebendo a confusão da garçonete.

-É, é, traz, por favor, a de damasco agora.

Ela trouxe a de chocolate.

Fiquei olhando pra torta por um longo momento, interrogativa. Por que me espanto que uma garçonete seja incapaz de seguir um diálogo, com uma pequena digressão no meio?Muita gente já não consegue seguir um raciocínio do início ao fim. Talvez ela não exercite o dela há muito tempo. Sinto cansaço de explicar o que ela deveria ter percebido: que eu dividiria aquela torta com minha filha e comeria a de damasco primeiro. Além de tudo, não quero parecer uma cliente chata. Burrice minha, devia ter reclamado....

Na primeira garfada...oh, horror....QUE MÃO PERVERSA FOI CAPAZ DE EXECUTAR AQUELE PEQUENO PEDAÇO DE VERGONHA GOURMET?

O bolo, digo, a torta, tinha pedaços de açúcar cristalizados que se destacavam ferozmente ao serem mordidos e o gosto que se seguia atrás e que provocou o meu desejo de vômito, era de creme de manteiga ruim batida com achocolatado ruim. Isso mesmo. CREME DE MANTEIGA COM ACHOCOLATADO AÇUCARADO, que eles tiveram a cara de pau de substituir pelo que deveria ser uma DELICIOSA TORTA MOUSSE DE CHOCOLATE. Verdadeiro, logicamente.

- Prova isso – ordenei a minha filha.

Ela me olhou desconfiada. Deve ter pensado: “Lá vem minha mãe, com essas malditas frescuras culinárias”. Provou.

- Isso te parece mousse de chocolate?

- Tem gosto de açúcar cristalizado.

- Sim. É creme de manteiga. Só não sei o que tá fazendo aqui nessa torta mousse. Não vou comer isto!

E empurrei a torta pra longe de mim. Eu não devia era ter pagado, isso sim. Nesse momento o casal que entrou só pra tomar dois expressos (espertos eles!!) saem da melhor mesa e migramos pra lá. Eu deixo a torta infame em cima da mesa que abandonamos. Ela fica lá, incólume, assustando os clientes que chegam e olham pra ela como se fosse um pedaço de pão rejeitado por um faminto. Afinal quem ousa rejeitar chocolate? A garçonete me olha intrigada, olha pra torta abandonada, me olha de novo, acusativa. Eu a chamo.

- Aquela torta que você me trouxe era a torta mousse mesmo?

- Era.

- Hum...achei que fosse um engano, porque não tinha mousse nela, só manteiga achocolatada.

Minha filha diz tímida, diplomática, prevendo um diálogo catastrófico entre eu e a garçonete:

- Às vezes não foi feita hoje...Foi feita hoje?

A garçonete diz se achando muito esperta:

- Não, as nossas tortas são CONGELADAS.

Minha filha arregala os olhos de uma tal maneira que só mesmo os atores sabem fazer...

-Congelada?!?!?! Nossa, que estranho! Não achei que a Torta&Cia servisse torta congelada.

A garçonete, cada vez mais esperta:

- Não, são congeladas, mas nós encomendamos de um lugar e elas chegam pra nós, mas duram três meses no congelador.

Minha filha tenta esclarecer o seu ponto de vista:

- Eu sei que bolo se congela. Só não pensava que esse fosse o caso aqui. Pensei que vocês faziam as próprias tortas.

- Não fazem -  eu sentencio pra dar um fim na incrível ingenuidade dela.

Ainda pedi a de damasco, só pra me convencer de que tudo ali é mesmo um verdadeiro engodo açucarado. Veio gelada de doer nos dentes. É congelada, agora sabemos. Dura  como uma pedra , com um forte gosto de maizena e sem nenhum traço de acidez como se deve esperar de uma torta de damasco. Ai, ai, ai...

Ao pagar CARO (pelos três pedaços de tortas e dois expressos), minha filha ainda olhou pra torta infame na vitrine e filosofou:

- Se eu pagasse 95,00 nessa torta inteira no dia do meu aniversário e viesse desse jeito...cara, eu nem sei o que eu faria...

Bom, eu sei. Escreveria uma crônica...rsrs


Ah...e o expresso é ruim também!

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