quarta-feira, 18 de março de 2015

Cinquenta tons de cinza

Eu devia estar na pré-adolescência quando descobri que minha mãe escondia historinhas sórdidas debaixo do travesseiro:  não eram as “abnegadas” Julia e Sabrina;  eram histórias agrupadas num voluminho de meia tigela que se chamava  se não me engano,    “Romance Moderno”. E quando ela saía por uma tarde inteira, já se imagina o que eu ia fazer...rs

Foi no pré-carnaval que  pra escapar de um engarrafamento,   decidi entrar no cinema pra  assistir à estréia do pornô chic “Cinquenta tons de cinza”. A história em si lembra bastante os roteiros das histórias que minha mãe gostava de ler. Puro entretenimento com uma pitada de erotismo perverso.

A personagem é a típica “inocente” que brinca com fogo e espera não se queimar. Bom, acho que toda mulher tem uma fase em que diz pra si mesma: “vamos ver se dói...se doer , eu caio fora”. Esperando no fundo que doa, mas com medo da dor. É um contra- senso...rs

O que atrai nesse filme  é a ideia de romper os limites...e taí , o sucesso dele, não adianta os intelectuais baterem o pé e não quererem reconhecer o sucesso desse tipo de escrita literária, que gera esse tipo de cinema de sucesso imediato ( e eu ouvi os gritinhos e risinhos histéricos na plateia, alguns sem sentido algum , o que mostra mais ainda o sentido)



A maioria das “cinéfilas” loucas para que o filme começasse eram jovens e ansiosas  também por um amor que lhes tire da órbita  da terra, me parecia...uma delas levou o namorado e repetia despudorada cada frase dita pela personagem com a qual concordava, como a propósito quando a personagem diz não concordar com o sexo anal. Ela prontamente repetiu: “concordo” rs. Levou claramente o namorado para instruí-lo na forma como quer ser tratada, foi o que percebi, como se estivesse lhe dando um manual de instruções, já que os homens atuais parecem estar meio perdidos...rs 

Pobres homens!  Eles não sabem mesmo há muito tempo o que as mulheres querem. Elas dizem querer companheirismo,  amor  blá blá blá. Mas não resistem a um furacão em forma humana de olhos azuis e muito dinheiro no bolso com uma roupagem erótica assustadora. Isso é esclarecedor...

Minha filha me disse um dia desses que os homens estão voltando a usar barbas e aparências mais masculinas. Mesmo os gays. Parece que isso reflete uma necessidade de varonismo por parte da plateia feminina. A julgar pela histeria que o filme provoca nas mulheres , eu concordo.

Bem,eu não vou dizer exatamente que eu seja desse tempo. Mas já  houve um tempo em que os homens usavam barba, deixavam o cabelo cair pelos ombros displicentemente como selvagens, raramente se olhavam no espelho, fumavam e jogavam steinhaeger em submarino dentro da cerveja rsrs...mas eles abriam as portas dos carros para as mulheres,  jamais deixavam que andássemos do lado da calçada, pediam pra namorar,   mandavam rosas e tinham outras atitudes românticas, além de pagarem as contas. Também gravavam as músicas prediletas da namorada no melhor estilo “High Fidelity”. Pagar a conta aliás ,  era o sinal de que ele estava no controle da coisa toda e a melhor maneira de minar a independência da mulher.









De lá pra cá muita coisa mudou: houve Mel Gibson ,  o ex-macho alfa tentando adivinhar o que as mulheres queriam;  o homem gato de academia que se olha muito no espelho, vai  ao salão fazer as unhas e divide as contas meio a meio.No meio disso aparece um homem mais sensível que leva o filho pro parque,   cozinha,   paga as contas,  mas não todas,    demonstra carência e vulnerabilidade e tenta ser um companheiro,   mas as vezes não sabe que a mulher quer que ele seja um pouquinho mais duro com ela, nem que seja pra que ela o desobedeça um segundo depois.


Acho que o grande lance é esse: a mulher gosta de ser dominada pero só pra se rebelar logo depois. É um jogo idiota na verdade. Como todos os jogos ,   mas faz parte da vida. E como todo jogo tem lá a sua excitação.

Mas não é bem isso o que aparece no  filme. O filme mostra que homem que é homem fala como homem,   dá as cartas,   fala que “f... como homem”,  pega,  leva e trás  pra lá e pra cá e trata a mulher como propriedade. A julgar pelo sucesso do livro ,   parece que um certo tipo de macho, sádico, controlador, feroz e arrogante , começa a atrair mulheres cansadas de alguma coisa que existe agora , que é uma mistura de meio –macho, com “meio- não sei quem sou”.

Eu não quero ser propriedade de ninguém e duvido que mulheres de minha geração aceitem isso. Algumas vezes em minha vida passei por situações temporárias de sujeição a outra pessoa e sempre foi    uma experiência muito humilhante...



As fãs do livro saíram do filme revoltadas. Mas vai ter mais. Grande sacada  dos produtores pra ganhar mais dinheiro. Não li o livro e não sei o que acontece lá. Provavelmente o livro mostra como a ambivalente personagem consegue domar o domador e passar de rata a gata. Elementar, meu caro Watson...rs

Brasileiro é hipócrita : as pessoas fingem que não gostam de um certo tipo de sexo e consomem literatura de quinta americana, provando que há uma falta de qualquer coisa no ar...daí os gritinhos histéricos que eu ouvi no cinema...

Nelson Rodrigues disse que “não existe uma cena de curra na literatura brasileira” e é verdade...

Enquanto não houver mais Nelsons Rodrigues na literatura, a sociedade dará seus louros a essa literatura pasteurizada americana. Que fazer? Culpa do famoso mau gosto brasileiro que está sempre com um pé na canalhice e mau-caratismo vigente e outro na pornochanchada...

Melhor que apareçam escritores com coragem bastante pra falar de sexo COMME  lL  FAUT. Com realismo e elegância.

Aproveito pra informar  que eu sou um deles. Editores, peguem as minhas provas....rs


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