domingo, 14 de setembro de 2014

Rio pra inglês não ver: O trem da central e o ponto de vista

A minha história com o trem da Central(acho que todo mundo tem uma, se mora no Rio) começou quando eu fui trabalhar muito longe de casa e achei que o melhor jeito de chegar era pegando esse trem. Douce illusion. Só depois de ter sofrido uns bons anos, ficado presa nas estações, andando nos trilhos de manhãzinha cedo com trens quebrados, chegando atrasada no trabalho e achando a minha vida uma bosta total, foi que descobri que eu não precisava passar por nada daquilo. Havia outras opções.

A ideia de me livrar do trem foi tão libertadora na época, que pareceu uma revolução em minha vida.



Aquele trem é o retrato fiel de uma cidade. Você pode analisar o Rio de Janeiro inteiro olhando os passageiros do Trem da Central, acredite.

Ele transforma todos em massa, aniquila as individualidades, mas, se você olhar com mais cuidado, vai perceber coisas diferentes...

Dia desses, eu estava a ponto de vomitar dentro de um ônibus com um motorista murrinha,quando avistei,com esperança, os trilhos da Central me olhando do lado de fora da janela. Eu não tinha tempo de pensar, era descer e encarar o trem, ou ficar sofrendo dentro daquele ônibus, que não chegava a lugar algum.

Foi aí que eu me lembrei de uma crônica de Leonardo Boff “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”, pois tudo que era tão sofrido antes, de repente, naquele dia em que estava ali por acaso, não conseguia me incomodar mais: virou um filme divertido, sociologia, estudo de campo, pesquisa do gênero humano. “Estou aqui fazendo turismo na minha própria cidade, olhando essa massa humana por puro divertimento.“

Você vai olhando os rostos, as roupas, os gestos: aquele ali lendo um livro com uma mochila colorida, estilo alternativo, tem cara de professor; outro ali, com uns óculos descolados bancando o moderninho, tem pinta de gay; aquela bem pobrezinha; aquela  lá (podia estar nesses programinhas estilo Regina Casé/Globo), com  a barriga de fora chamando atenção e falando alto com a amiga sem muita educação, ocupando muito espaço como fazem as pessoas que acham que quanto mais mal educadas, mais elegantes parecem(é uma contradição muito comum, praticada por exemplo, por aqueles que falam alto ao celular , crentes que estão abafando) ; aquela outra ali, mulata retumbante, todos os homens olhando pra bunda dela, deve ser sambista, só pode, subiu em Madureira; aquela, toda fechada em botões,segurando a bolsa com força, meio deslocada, deve ser novata no trem.Cada um é uma pessoa diferente da outra no meio da multidão, cada um com sua história.

E os ambulantes, são uma atração à parte. Minha filha que é atriz imita-os com maestria. Eu morro de rir quando ela me diverte fazendo isto. E a Central, imagine, que bala o quê, vende de tudo:caneta, fone de ouvido, recarregador  de celular  universal a vinte reais, “cerveeeeja, cerveeeeja”, escovas de dente, “Pepssssi, pepssssi”, chocolate verdadeiro, “no prazo de validade”, o que te faz pensar que existe em algum lugar empresinhas que executam a tarefa de trocar etiquetas de prazos.



E lá vem um casal: a própria comoção em pessoa. Ele cego, ela segurando-o com a bengalinha. Noto como ele, de esguelha, abriu os olhos que pareciam bem saudáveis, pra se proteger de um esbarrão numa cadeira,mas ela  continua  lá, firme, repetindo o teatro, a cantinela das necessidades,com todo mundo pondo uma moedinha no copo descartável tamanho família. E ninguém parece notar o engodo. Ou não se importa.

E os evangélicos? Os leitores de Bíblia? Gente que acha que vai nos converter gritando no nosso ouvido. Dá vontade de gritar de volta: “vai gritar no ouvido da senhora sua mãe!”. Devia ser proibido dentro de um trem...

Mas tudo é normal e permitido Rio de Janeiro, até as coisas anormais, ou, principalmente essas coisas anormais. Assim como os trombadinhas da rodoviária continuarão praticando seus ”pequenos delitos” bem na cara da polícia, que se planta lá com cara de paisagem, os falsos cegos, evangélicos e ambulantes ficarão por aqui até o fim dos tempos.


É como eu disse: retrato do Rio de Janeiro, pelo lado de dentro. Ninguém consegue um melhor passeando pelo pão de açúcar...

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