quarta-feira, 30 de julho de 2014

O estranho encantamento da lente de Bergman


A Sky tem reprisado uma seleção de filmes de Bergman . É claro que o cineasta está fora de moda, o existencialismo com que a crítica o rotulou ficou impresso no sentido negativo nesses tempos  de inexistência , em que nem W. Allen faz mais filmes assim.
Quem é que está preparado pra UMA BÍBLIA EXISTENCIAL? Ah, nem eu, que era muito fã do cineasta lá pelos anos noventa. “Bergman, de novo,  ah não...”pensava , quando via  que estava passando algum festival dele no cinema.
Mas a televisão te pega de jeito.  Estava zapeando canais,  quando me deparo com a imagem amplificada de Liv Ullmann em “Cenas de um casamento”.Liv, a mulher dos olhos de oceano e cabelos de fogo.Acho que nenhuma atriz do mundo foi filmada do jeito que ela foi.


 E lá estava eu olhando aqueles closes impressionantes do cineasta que filmava a alma do ator no personagem....ou seria o contrário?
É lógico que já vi  “Cenas de um Casamento” uma dezena de vezes, mas me senti arrebatada, encantada. E redescubro as boas cenas , tão atuais agora como sempre,  do casal que na hora de assinar o divórcio decide se embriagar com conhaque e acaba no chão fazendo amor,  falando coisas muito boas como:  “ah, coitadinho, tão doentinho(...)  o seu pinto vai congelar”....rs . Depois acaba  aos tapas com direito a sangue saindo do nariz e fim de papo, os dois assinam, sem mais delongas, como uma tomada de consciência do irremediável. Uma troca de tabefes fala por si só.



Não é porque a temática impulso/pecado/culpa e remissão é a história da minha vida, que Bergman me fala tão alto. Afinal a obra dele gira em torno disso. Mas, quem não se identifica com a mulher  convencional , armada, que ao ser abandonada tem impulsos de humilhação? Com o homem autocentrado que passa a desejar a mulher que ele humilhou? Crueldade, libertação, compaixão, desamor, amor . No final, os personagens ficam nus, desvendados em sua hipocrisia sem saída.
O que é f...nesse cineasta é a sinceridade com que ele joga na cara da gente  a nossa total  falta de positivismo, virtude  e lógica. Mas nem todo mundo aceita isso, por consequência, ele é um cineasta de clubinho.
E  as frases clichês de Bergman são impagáveis: “Pode-se dizer qualquer coisa de uma pessoa. Algo sempre se encaixa”. Muito bom...rs. Até o humor dele aparece nas cenas dramáticas, o ridículo estampado dos seres humanos( a ex virando a amante e se escondendo atrás de um poste pra encontrar o homem que já a traiu e com quem ela trai agora).
Pelos ingredientes, podia até ser uma comédia americana, é verdade, mas os americanos, nunca saberiam fazer nada parecido com tal matéria. Eles são engessados! Bergman é biscoito fino de papel de seda e americanos, com raras exceções,  só fabricam biscoito de pacote, com mesmo sabor e aroma. Veja-se  o que fizeram com “O Grande Gatsby”, a obra clássica de Fitzgerald. Virou “O Ridículo Gatsby”,acho mesmo que foi a mais constrangedora atuação de Leonardo de Caprio em toda a sua carreira, aquelas caras e bocas, meu pai! Que posso dizer?  Nada como o cinema americano para detonar com a cultura americana...(pior , que dessa vez, foi um australiano, parece).
Voltando da digressão: pensei que não mais, mas acho que ainda faço parte do clubinho dos que são loucos por Bergman, o cineasta que está muito além do existencialismo babaca que  a crítica lhe atribui ....
Pela lente dele  não passamos de uns pobres frágeis ,assustadiços,  levados pelas emoções e, bem, é isso  o que somos, no fim das contas!

Será que eles vão reprisar o meu preferido:  “Fanny e Alexander”?rs


Nenhum comentário:

Postar um comentário