domingo, 16 de fevereiro de 2014

BRASILEIRA, EU?!?!

É como assistir a um cenário que não muda de uma peça de teatro. Horas olhando :  a loira e o gordinho sentado à sua frente, a loira e ele , só dão os dois...os dois conversam, ela telefona, ele acena com a cabeça , ela telefona, ele balança a cabeça, ela fala alguma coisa, aguarda o computador e isso não termina...

Fico entediada.

Só tem três pessoas na minha frente,  mas a essa altura não parece vantagem , já que nenhum se move do lugar. Não acho normal tanta demora,  mas, estou de mal humor , está calor lá fora e me lembro que vou voltar a pé no sol, a culpa é minha , vai saber.

Nada da fila andar.

Mas brasileiro não reclama, espera quietinho, “brasileiro não desiste”, não é assim o nosso chavão?

Os viciados em celulares não percebem, conversam, se distraem, postam fotos, riem, brincam. Ou o celular é a nova pílula calmante do mundo ou é um modo de afogar o senso crítico, percebo pela milésima vez , que isso não tem cura. Viveremos todos embriagados, bestificados e idiotizados por  uma realidade falsa  por todo o  próximo milênio.

Jogo com a sorte e penso: “vou entrar na fila do caixa,  e transferir para o banco y e abro a poupança lá, se a loira não me atender”. Pego a senha do caixa e peço pra guardarem o meu lugar na fila da loira. 

A senha: duas opções de numeração diferente, é claro que vocês sabem devem conhecer a armadilha: De um lado, está escrito algo como : “serviços gerais”; do outro, “pagamentos e recebimentos”. Vou fazer uma transferência para outro banco, pego a senha para “serviços gerais”. Pois é. Não era.

O atendente me olha e me diz: “eu não faço transferências”. Isso depois de uma hora na fila. Olho pra ele e vejo que ele não está de brincadeira, pois é, nem  eu. Estou passada. Digo pra ele, que não vou voltar pro fim de outra fila. Ele nem aí, repete como um robô ensaiado:

“Eu não faço transferências”.

“Tá querido, eu entendi, ok, você não faz transferência,  mas eu estou na fila há uma hora.”

“Mas é a fila errada”, ele repete. Ele se volta pro colega ao lado, cochicha qualquer coisa no ouvido do outro, o outro sacode a cabeça negativamente e eu já sei que vou ter que “rodar minha baiana”. Volta-se pra mim, de novo: 



"É  isso mesmo , a fila da transferência é aqui  ao lado”

Ainda por cima é novato, nem tinha certeza....ai ai ai.

Eu pergunto:

"Vocês sabem português?"

Ele me olha com cara de idiota. Não responde nada.

"Acho que vocês precisam contratar um professor de português neste banco. Está escrito “serviços gerais”de um lado e “pagamentos e recebimentos”de outro. Transferência não é necessariamente pagamento ou recebimento, compreende?"

Ele me olha com cara de besta. Não  compreende, é claro.Linguagem de banco é infernal! Eu e meu barroquismo linguístico não podemos entender tanto código simplificado. 

Uma mulher fala na fila: 



"Ela tem razão."

Ótimo,  já ganhei adeptos . Alguns me olham com desconfiança, no entanto, percebo. Estão sentindo que vou atrasá-los. Quando estavam se divertindo nos seus celulares, nem pensavam nisso, mas agora, o meu dilema os incomoda visivelmente. Qualquer coisa que quebre o padrão do conformismo, incomoda as pessoas.

O atendente tem o desplante de dizer:

"Próximo"

O primeiro da fila avança um pouco Eu fecho o espaço  com o meu corpo e digo decidida olhando nos olhos do horroroso:

"Eu não vou sair daqui até você me atender."

Ele fica nervoso e começa a suar. Não tem escapatória pra ele. Quando me aborreço, não cedo fácil.

"A senhora pode subir e falar com o gerente."

"Nem morta, eu não saio daqui, vou ser atendida nesta fila. Se o gerente quiser que venha aqui."

Ele me ignora e começa a atender  a outra pessoa.

"Porcaria de banco", eu digo, quando vejo que o guardinha da porta já foi buscar o gerente, que vem todo mostrando os dentes. Uma delicadeza só!

"Boa tarde..."

O resto vocês sabem , ele mesmo fez a operação num minuto,  pediu mil desculpas, disse que ia instruir melhor os funcionários na questão do atendimento  e eu não tive que ficar em fila nenhuma.

Dizem que brasileiro não desiste de esperar. 


Eu, de brasileira, só tenho a nacionalidade!

Um comentário:

  1. Detesto fila, engarrafamento e burocracia em geral...

    Todos esses fenômenos do urbanidade caótica são um desperdício de vida...

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