terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Perda de noção

Todo mundo sabe que os jovens estão como diz a minha filha: “fora da casinha”, o famoso “perda de noção”. Na minha escola aconteceu há pouco tempo de vários alunos resolverem “malhar um professor “pelo facebook.   A coisa rendeu um pouco e o professor já pensava em processar os envolvidos, quando finalmente resolveu ler o que eles escreviam(ele não tinha lido até então , só tomou conhecimento através dos colegas)  e saiu rindo da história toda. Eram tão rasos e mesquinhos os comentários, um festival de banalidades mesmo,  que ele declarou que  não “valia a pena uma dor de cabeça”, ou não sei , talvez ele fosse apenas “um cuca fresca”, desses acomodados que não quer se aborrecer. Alguns outros levam a coisa a ferro e a fogo.

Mas que não se pense que a coisa esfria assim...

No filme “Margaret”, aquele com Anna Paquin tem um diálogo entre a “sem noção” e , muitas vezes cruel, Lisa e o professor de geometria , vivido por Matt  Damon. Ela pergunta pra ele, se ele já cavalgou muito na vida , e bem , o diálogo é mais ou menos assim:

- Mas você já deve ter cavalgado muito não é?

- Por que vc diz isso?

- Vc não é do Texas, ou Wyoming ou algum lugar como esse?

 - Algum lugar como esse?!?!

- Vc sabe...que  não é de  New York.

A essa altura o professor parece cada vez mais bestificado e responde educadamente:

- Na verdade, sou de Indiana, mas não quero te confundir com esses detalhes supérfluos(ele frisa bem essa palavra)

- E como veio dar aulas numa escola de judeus liberais e ricos?

- Vim pra Nova York pra ensinar e é isso que eu estou fazendo...

- Vc diria que alcançou o ápice de sua ambição?

(...)
O diálogo continua  e, resta dizer que  o professor se livra com total elegância da impertinente, pra não dizer arrogante jovem. Quando eu era criança, minha mãe costumava dizer quando eu me excedia : “Onde já se viu uma coisa destas?!?!!! “, o que me recolocava em meu lugar no mesmo segundo, tal a fúria com que ela pronunciava essas palavras. Minha mãe era mesmo uma mulher muito poderosa! Mas isso não faz nenhum efeito mais no mundo de hoje. Diga isso a uma criança, e ela rirá na sua cara.

Talvez eu esteja com uma visão pessimista e amarga de algumas coisas, mas o que eu vejo é que  em nome da sua visão de vida, seus preconceitos, suas escolhas, as pessoas atropelam os outros, confrontam, questionam , invadem, aborrecem, agridem, oprimem mesmo. É surreal!

Mas o engraçado é que tudo isso está virando normal, como se  as pessoas tivessem o direito inquestionável de cuspir sua arrogância pelo mundo,seu status quo.  Arrogância essa que vem acompanhada por um mundo impressionante  de preconceitos vazios e desumanos , muitas vezes.

Vivemos num mundo de “partilhas”, rapidez comunicativa, trocas etc, mas esquecemos disso no primeiro momento em que nossa visão de mundo é questionada e passamos a não enxergar mais o outro. É assim que   , dando o exemplo do filme, um nova-iorquino chega   a dizer que quem não é de Nova York e’”de um lugar qualquer”; que o professor tal é um chato  porque simplesmente não gosta da matéria dele;  que tal alimento é ruim, quando simplesmente , comeu uma vez e passou mal; que tal pessoa é insuportável , simplesmente porque no fundo ela lembra alguém que se odeia , mas não se é suficientemente corajoso pra admitir. 

É da natureza do homem ser egocêntrico , não adianta fugir disto, mas, alguns elevam esse adjetivo à máxima potência e ,  ainda assim,  isso não dá o direito a ninguém de ser intolerante ou arrogante com o outro.


Isso tudo é bem triste...

2 comentários:

  1. Adorei o Blog, até me deu incentivo a tirar uns livros da prateleira, onde estavam só pegando pó, e voltar a ler um pouco mais. Vlw Simone!

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