domingo, 1 de dezembro de 2013

O meu anjo pornográfico jamais falaria um palavrão


Nelson Rodrigues é uma unanimidade na minha família. Meu irmão lia todas as peças dele, já antes mesmo de entrar na faculdade de Direito. Eu o li mais tarde,  mas a paixão foi imediata. Na faculdade de letras tive um amigo  que o estudava e ele me contava de como Nelson era tido  como maldito na academia. Ainda o é, o que é uma verdadeira piada. Não estamos em condições de dispensar dramaturgos  malditos,  já que os temos tão poucos.





Minha filha que é atriz , na Cal, aos dezonove  anos, passou por um batismo de fogo e desmaiou depois de fazer uma cena de incesto do Álbum de Família. Teve a sorte de conhecer pessoalmente uma sobrinha dele, e depois disso , Nelson  passou a ser seu dramaturgo preferido. Quis  então fazer um curso só sobre Nelson e na primeira aula o professor disparou:” Nelson jamais falaria um palavrão”.
E é verdade. Mas parece que muitas pessoas ainda acreditam nesse Nelson, que fala palavrão, e é prostituído. Impuro. Mas , não , Nelson não é assim.  Ele só fala : PUTA, CANALHA, etc. que todo mundo sabe que não é palavrão, obviamente. É a coisa em si. Substantivos.
Estou fazendo um curso de dramaturgia  e no exercício sobre Nelson, lá apareceu  o inevitável palavrão. Alguém resolveu  sortir seu texto de “porras” e porras” e outras porras a cada parágrafo numa historia sem muito sentido. Nelson passou longe, não estava nem no tema,  na ideia, nem no estofo  e me perguntei mesmo se a pessoa  em questão, com todo  o respeito, chegou a ler algum texto de Nelson. Isentei-me de qualquer opinião, pra não parecer arrogante e polêmica, uma vez que já me sobraram piadas por conta da minha paixão por Nelson.  As vezes é melhor ser prudente.  Aliás vi mesmo hoje num filme, uma frase com a qual concordo: “as pessoas estão ficando mais burras e com mais opiniões”. Não quero cair nessa cilada.
Senti-me deprimida, e aliás, particularmente, voltei pra casa com dor de cabeça nesse dia. Era como se dessem um tiro no meu ídolo. Senti-me como no dia que Chapman matou John Lennon. Sem exageros. Que tenho a dizer para me defender desse absurdo que acabo de falar? Sou mesmo louca por Nelson...
Não creio que esteja entendendo muito a dramaturgia atual, que algumas vezes me parece uma mistura de roteiro de cinema e televisão , apenas transmutada para o palco, com a devida secura, que as pessoas creem que o palco  demanda.
Males da civilização. Minha professora fala que não devemos esquecer que as pessoas não têm mais uma grande atenção sobre textos longos e nos aconselha a fazê-los mais curtos. Não questiono isso , porque é uma verdade. Até mesmo me pergunto quantas pessoas leem essas “longas” crônicas que deixo neste blog.  Aquele mesmo professor de historia meu amigo, diz que quando escreve três parágrafos no facebook, ninguém mais o lê. E eu acredito.
A questão é? Devemos nos render a isso? Por quê?
Voltando ao teatro, quantas peças de Shakespeare que foram adaptadas para o cinema, tiveram uma transcrição feliz? Não conheço nenhuma. Vocês conhecem?Todas sofreram...

Gosto de ter parâmetros pra me orientar:  Teatro é teatro. Nasce teatro e morre teatro. É no que eu quero acreditar de todo o meu coração...

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