sábado, 16 de novembro de 2013

Projetos do nada para coisa nenhuma

Papo que ouvi na escola essa semana:  

(Professora x perguntando à professora y)

- Professora, como foi o dia do projeto de sustentabilidade?

-Ah, eu não pude vir, tive que ir ver o projeto da Biblioteca pro ano que vem.

Uma faxineira que dava sopa por ali e não sabia que a professora y em questão era a responsável pelo projeto, mas não havia comparecido ela mesma, disse muito naturalmente:

- Ah, não perdeu nada. Não teve nada de bom e foi uma sujeirada só! As salas ficaram imundas!

A professora y, um pouco constrangida pela minha presença de “gaiata no navio”(eu estava passando por ali e ...aiaiai, essas coisas só acontecem comigo), pronunciou envergonhada:

- Ah, mas se o projeto era sustentabilidade, os alunos deveriam ter limpado depois...

A faxineira disparou então o riso mais irônico dessa semana.
Pra mim, isso foi a melhor metáfora possível sobre o que penso da nova mania dos projetos.  Juro que na volta pra casa ouvi essa palavra dos transeuntes nos ônibus, nas ruas, nos restaurantes, nos bancos, mais umas três vezes.

Foi-se o tempo em que as pessoas realizavam coisas sem projetar, ou o tempo em que isso era apenas um jargão dos profissionais da arquitetura ou de outros que realmente precisam dos projetos.
Hoje o ser humano se tornou inoperante sem eles.

O estudante de hoje, por exemplo, não procura mais o conhecimento porque tem necessidade psicológica dele, curiosidade, paixão...Não,  sua motivação só é despertada se ele for inserido num projeto de um certo tema, numa certa hora, que terá uma culminância num tal dia, em que todos verão o que ele produziu. Competirá com outros, para ganhar um prêmio X, ganhará tantos pontos, fotografarão e se sentirão felizes e sabedores do assunto, que, com certeza(sorry por dizer isso aos amantes dos projetos) não aprenderão nem na teoria, muito menos na prática, embora, supostamente tenham praticado. Terão importado tudo da internet, das soluções “mágicas” que encontraram até mesmo às dificuldades. É incrível, é um contra-senso, mas é verdade! Se a internet comete um erro, o aluno será incapaz de corrigir ou mesmo de percebê-lo ou aperfeiçoá-lo, porque ele não tem outro parâmetro e não saberá se aquilo está certo ou errado e sequer ocorre em sua cabeça que existem outras fontes além da internet.  
 Estou falando de educação, mas no meu entender isso vale pra tudo.

Projetos consumem pessoas, anos, gabinetes, assinaturas, falcatruas, desvios, corrupção, traição. Alguns são realizados ocasionalmente, quase nunca do modo como foram projetados. Outros são eternos e retumbantes fracassos; enquanto pessoas que querem fazer as coisas, apenas as fazem, nem sempre as projetam. Vão fazendo, sem alardes. Como Woody Allen faz seus filmes; como um músico, faz suas músicas, tocando sua guitarra todo dia; como uma cozinheira cozinha e põe a comida na mesa.

Grandes projetistas como os nossos governantes afundam o país no caos e levam os louros de obras que duram anos consumindo dinheiro e enfiando nos bolsos, enquanto o povo sofre. Preciso dar exemplos no Rio de janeiro? Basta uma volta nas imediações da perimetral...

Uma vizinha, que pega ônibus comigo todos os dias, me disse que é uma obra de primeiro mundo. Eu não duvido e não quero ser aquela que vai criticar uma coisa que nos beneficiará no futuro, ou parecer retrógrada.  Mas discordo da ideia de “obra de primeiro mundo”. E, cá pra nós, ainda é difícil dizer se isso nos trará benefícios, como melhorar o trânsito que no momento é o problema carioca que causa verdadeiro nojo de morar aqui.

Um professor de Historia meu amigo, costuma dizer que não passa de uma versão do PR da época da vinda da família real para o Brasil.
Para quem não se lembra da história, foi assim:

Quando a digníssima família real chegou ao Brasil fugida de Napoleão, o Bonaparte, para não trair a Inglaterra, sua aliada na época, isso aqui era praticamente uma tribo nem um pouco digna de abrigar uma família real, ainda mais que eles saíram de lá fugidos, em cima da hora e não deu tempo de fazer as honras e prepararmos uma ceia pra eles. Os poderosos da época então, tiveram a brilhante ideia de pegarem as mais honradas casas das mais honradas famílias para dar um teto para a realeza.

De que forma?

Simplesmente um guardinha vinha e escrevia na porta do “sortudo eleito”: PR (propriedade real) e, claro, restava ao contemplado, mudar-se para o raio-que-os–parta e ainda tinha que se sentir honrado por abrigar a nobreza.


A sociedade carioca, desde sempre irreverente, sei lá por que,  logo apelidou o PR de: “Ponha-se na rua”.

É uma boa historia e mostra que o Rio de janeiro ainda não se livrou dos intrusos e malucos que tiram todos do lugar com um simples: “Aqui jaz uma rua, uma rodovia.” 

O povo, como sempre, que vá para o quinto dos infernos...

Alguém se lembra aí do Japão depois do Tsinunami? Em quanto tempo eles recuperaram e levantaram o seu país? Mas, aqui, é esse caos, tem que ser esse caos por anos e anos, para que o governo e seus comparsas lucrem o máximo com tudo.


Independente das rodovias, considero primeiro mundo um país em que haja o desejo de alguma coisa, um país em que as pessoas não precisem projetar tanto as coias, simplesmente tenham a vontade de fazê-las, por potência de vida, por força vital, o que sempre escasseia em gente manipulada, sofrida e anestesiada, males que o carioca parece sofrer a uns bons anos.

Eu não sei vocês, mas eu sou assim: nunca confio em ninguém que fala: “estou com um projeto”...


Saio correndo rapidinho!

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