terça-feira, 15 de outubro de 2013

L'homme du train




Se não houver um personagem que mude a vida, ou passe a repensá-la, não há cinema porque obviamente, ninguém vai ao cinema pra ver a mesmice da vida real, que se esgota às vezes na repetição de si mesma, como num trem que revela ao final da viagem, sempre a mesma estação.


Não em “L’homme du train” de Patrice Leconte, 2002. Eu sei, o filme é velho , mas só vi agora. Então pra mim é novo. Não vou elogiar o que já foi feito na rede, com a mesmice de sempre, por sinal, “maravilhoso, profundo etc”. O filme é mesmo sensacional. Mas o que quero falar é sobre o artificialismo do cinema , como ele ajusta tudo pra nos contar uma historia que, por mais inverossímil, acabamos acreditando. Tudo , tudo é falso no cinema. Neste filme há uma serie de acordos que é preciso fazer com a mentira, pra embarcar na historia. Precisamos acreditar que um ladrão sem eira nem beira se encante com a vida pacata de um professor, que um professor pacato não tema um ladrão de bancos e confie totalmente nele a ponto de lhe abrir as portas da casa (logo se vê que esse professor só podia morar mesmo no interior da França, se fosse o Brasil, ai ai ai...), mas os atores fazem isso gloriosamente e apesar da conversa absolutamente improvável dos dois logo no inicio, na segunda cena , eles já compraram o público.Você acreditará em tudo então que aparecer na tela, até mesmo na história do homem que só fala uma vez por dia, exatamente às dez da manhã.

Bem que eu gostaria de falar também em alguns dias de minha vida, apenas uma vez e que não me amolassem com palavras.... Ah, essas coisas tão estranhas, as palavras. Uma vez ditas, não se pode desdizê-las, só desculpar-se. Se forem escritas, viram documentos.

O filme trabalha com uma teoria expressa por um dos personagens e que será a ideia básica: a ideia de que existem dois tipos de homens no mundo, os precavidos e os aventureiros. O professor, claro está, é o homem precavido, doido pra pular a cerca e passar para o lado dos aventureiros. O aventureiro, no caso , não é bem um aventureiro, é só um homem que “faz o que tem que fazer”. Um prático. E voilà, está no filme e está na vida, uma vez precavido, você desejará ser aventureiro; uma vez aventureiro, você desejará ser precavido.

Ah, o homem, esse ser sempre pronto a ser aquilo o que não é. Somos sempre não o que somos, mas o que queremos e sonhamos em ser e nos transformar...

Adorei o filme!

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